A ARQUITETURA EM BUSCA DE SAÍDAS – Anatxu Zabalbeascoa

Publicado originalmente no suplemento Babelia de El Pais, edição de 24 de outubro de 2009, sob o título “La arquitectura busca salidas“. Disponível online em www.elpais.com/articulo/portada/arquitectura/busca/salidas/elpepuculbab/20091024elpbabpor_3/Tes.

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ARQUITETOS COMO NORMAN FOSTER E RICHARD ROGERS ASSEGURAM QUE AS CRISES SÃO A MATÉRIA PRIMA DA ARQUITETURA. OS CRIADORES DESTE SÉCULO XXI, MARCADO PELA RECESSÃO, BUSCAM NOVAS IDÉIAS E TERRITÓRIOS PARA DESENHAR O MAPA ARQUITETÔNICO DO FUTURO.

“A Arquitetura é uma corrida de obstáculos que nos obriga a saltar por cima dos códigos [normativas], do orçamento estabelecido [el presupuesto], do cliente, e das duras realidades impostas pela execução da obra: dos problemas do concreto armado à conjuntura econômica”. Boa parte dos projetistas do Planeta subscreveriam essas palavras de seu arquiteto mais global, Norman Foster. Contudo, no último lustro, o mundo aumentou em cerca de 50% seu ritmo de construções. E este ritmo, nunca antes visto, se desvanece agora, dramaticamente, em alguns países. Na Espanha, o Conselho Superior de Arquitetos fala de um decréscimo nas licenças de obras privadas [visados], da ordem de 71%. E apesar do Plano E – através do qual o Governo tentou reativar a construção civil –, o Ministério do Fomento estima a redução das obras públicas em cerca de 30%. Após o fechamento [cierre] de 40.000 agências imobiliárias – a metade das que existiam na Espanha –, começou agora a desativação de agências bancárias – a maioria, em Málaga e Almería – que deviam sua existência ao crescimento das hipotecas para aquisição de uma segunda moradia, de veraneio.

Norman Foster.

Crédito: http://archide.wordpress.com.

Ainda que a relação entre ‘edificação’ e ‘arquitetura’ seja a mesma que se observa entre ‘escrita’ [escritura] e ‘literatura’, o certo é que os edifícios, bons ou maus, já consomem cerca de 50% da energia que coloca em funcionamento o mundo atual. E este é um dos nós com que se defrontou a crise. Existe, por fim, o propósito de que isto deva mudar – e já se está começando a fazê-lo. Mas não foi a crise econômica que desencadeou esse processo [lo ha destapado], ao contrário, ela dele se serviu para reconhecer um estrangulamento [aprieto] anterior: o energético. Com a progressiva mudança de mentalidade, desaceleração do ritmo construtivo, e aplicação de novas normas e inovações [rompedoras] técnicas, esse novo caminho está se abrindo e ganhando espaço. Mas será que a economia [ahorro] de energia mudará a forma dos edifícios e as cidades ?

A NORMATIZAÇÃO DA SUSTENTABILIDADE

Ainda que a porta que se abre à ‘sustentabilidade’ pareça um caminho sem volta, há quem defenda que os melhores edifícios da história – “pensemos na Alhambra”, propõem Emilio Tuñón e Luis M. Mansilla – sempre foram sustentáveis. E sem necessidade de etiquetar-se como tal. Mas são muitos os arquitetos que reconhecem um aumento da economia de energia em seus últimos projetos. Isto foi possível, em parte, graças a questões não especificamente ‘arquitetônicas’ como, por exemplo, a conscientização dos clientes. À testa deste grupo, o italiano Renzo Piano demonstrou que se pode fazer Arquitetura de qualidade gastando menos energia. E ruiu o mito que tornava incompatíveis ‘rigor arquitetônico’ e ‘rigor ambiental’ [medioambiental]. O projeto de Piano para a Fundação Paul Klee, na periferia de Berna, opera com cerca de 50% menos energia que um outro edifício seu, de uso similar: a Menil Collection, construído em Houston, há 23 anos atrás.

Corte dos Leões, Alhambra.

Crédito: http://www.hiren.info.

Fundação Paul Klee, arquiteto Renzo Piano, Berna, 1999-2005.

Crédito: http://maggiemilano.wordpress.com.
Menil Collection, arquiteto Renzo Piano, Houston, 1987.

Crédito: http://www.bluffton.edu.

Mesmo considerando que essa ‘economia energética’ pudesse parecer uma mudança pouco visível, a verdade é que está metamorfoseando o mapa arquitetônico. Da impaciência por deixar uma ‘marca’ [huella], muitos projetistas passaram a preocupar-se para que essa marca não cause danos [no moleste]. Assim, o próprio Renzo Piano semienterrou a onda metálica que dá forma [dibuja] ao Centro Paul Klee, localizado a poucos metros da sepultura do pintor suíço. No Japão, o cambiante [desigual] Toyo Ito afundou [hundió] a nova Feira de Fukuoka, num parque erguido sobre uma ilha ganha à baía de Hakata. E Tadao Ando escavou literalmente o solo da ilha de Naoshima para extrair, das entranhas [vientre] do terreno, o Museu Chichu, um edifício coberto de vegetação que expõe, exclusivamente, obras de Claude Monet, James Turrell e Walter de María.
Parque Grin Grin, arquiteto Toyo Ito, Ilha de Fukuoka, 2005.

Crédito: scarletgreen in http://www.flickr.com.

Museu Chichu, arquiteto Tadao Ando, Naoshima, 2004.

Crédito: Fujitsuka Mitsumasa in http://www.mimoa.nl.

O gabarito baixo de boa parte desses novos edifícios, contudo, não é a única resposta à crise. Richard Rogers e Norman Foster asseguram que ela é a matéria prima da Arquitetura, aquilo que torna possível sua evolução. Por isto, ainda que arquitetos com projetos internacionais, como David Adjaye, tenham estado à margem do colapso econômico, os líderes da Arquitetura global não querem ouvir falar em ‘se conter’, ‘selecionar’ e ‘limitar’. Neste aspecto, algumas cifras pouco mudaram: são eles que assinam alguns dos edifícios mais caros dos últimos anos. Com um custo próximo aos € 6,45 milhões, o Terminal 5 do Aeroporto de Heathrow – projetado por Rogers – multiplicou por dez o custo do Terminal 4 do Aeroporto de Barajas, que o mesmo arquiteto desenhou em parceria com o madrilenho Estudio Lamela. Norman Foster, por sua vez, investiu no Estádio de Wembley, ao norte de Londres, quase o dobro do que custou o novo terminal madrilenho: € 1,135 milhões. Sem dúvida, mesmo que as cifras continuem disparadas, algo está mudando também nas alturas, ainda que seja só a localização [ubicación] dos novos edifícios, construídos com o mesmo ‘ideal icônico’ e idêntica precisão fabril.
Terminal 5 do Aeroporto de Heathrow, arquiteto Norman Foster, Londres, 2002-08.

Crédito: Warren Rohner in http://www.flickr.com.

Terminal 4 do Aeroporto de Barajas, arquitetos Norman Foster & Antonio Lamela, Madri, 2004-06.

Crédito: http://pt.wikipedia.org.
Estádio de Wembley, arquiteto Norman Foster, Londres, 2003-07.

Crédito: http://www.wallpapers-football.net.

NOVOS MERCADOS ARQUITETÔNICOS

Eles são chamados de ‘novos mercados’ mas, na realidade, são países – como o Marrocos ou o Casaquistão –, quase virgens no que se refere a ‘ícones contemporâneos’. A pergunta que se faz é: por que os arquitetos-estrela estendem seus tentáculos até lá ? Será que detectaram um certo ‘fastio’ no resto do mundo ? Eles asseguram que o que os move é o ‘desafio’ [el reto]. No entanto, o número de seus empregados – mais de 1.000 no escritório de Foster – e a entrada de investidores externos em suas contabilidades denunciam a lógica expansiva que mantém suas empresas com o nariz fora d’água [a flote]. Seja lá o que for, essa busca de novos territórios onde construir também revela o conflito que atormenta [azota] a união entre ‘estrelato’ e ‘globalização’, qual seja: a impossibilidade de se ser ‘exclusivo’ e ‘universal’, simultaneamente. Após a construção do Guggenheim de Bilbao, é difícil que um edifício de Frank Gehry ainda surpreenda alguém. E depois da torre Swiss Re, em Londres, quantos arranha-céus em forma torpedo ainda poderão assinar Norman Foster ou seus discípulos [epígonos] ?
Torre Swiss Re, arquiteto Norman Foster, Londres, 2001-03.

Crédito: http://www.skyscrapernews.com.

Ainda que declare, elegantemente, não ser ele a pessoa mais indicada para afirmá-lo, Foster se mostra reticente [tajante] ao não admitir semelhanças em nenhum de seus projetos. Nem entre as torres, nem entre os chamados edifícios ‘borbulhantes [burbujeantes]’. Mas ainda que assuma, que uma determinada ‘solução’ possa servir para vários edifícios, é impossível para um autor tão prolífico como ele ainda dispor de tempo para acompanhar o mundo de edifícios que está construindo – uma centena, apenas neste século. Assim, muitos detalhes quem resolve é sua equipe, a partir de critérios estabelecidos num ‘manual de estilo’. E isto se percebe nos edifícios.

José Selgas, que construiu o surpreendente – e, sem dúvida, sereno – Palácio de Congressos de Badajoz – e o repete agora com o de Plasencia –, realizou 360 visitas ao canteiro de obras para concluir o auditório pacense¹. E este vai-vem [trajín] do arquiteto madrilenho, pela autoestrada da Extremadura, está presente em cada detalhe do projeto: os extintores fundidos em colunas vermelhas, os corrimãos [barandillas] leves e econômicos, todos iguais mas com aplicação [entrega] distinta… “Até mesmo em Alvar Aalto se notava a quantidade de visitas à obra que dedicava a cada projeto”, comenta Selgas. Possivelmente, seu estúdio seja, hoje, o mais vanguardista da Espanha, embora sua maneira de construir seja antiga. Ele e sua sócia, Lucía Cano, creem que o ‘manual de estilo’ não resolve todos os problemas [las cosas]. E que a tomada de decisões no canteiro de obras [a pie de obra] é a única que assegura a qualidade de um edifício.
Palácio de Congressos Manuel Rojas, arquiteto José Selgas, Badajoz, 2006.

Crédito: http://www.arqa.com.
Será então que o futuro se escreverá com menos projetos e mais dedicação ao canteiro ? Ao ‘cuidado’ que reivindica Selgas, se opõe a certeza da possibilidade de acertos com uma aposta mais ampla. Esta continua sendo a postura daqueles que não reduzem seu leque [abanico] de projetos. E às vezes, não lhes falta razão. Arquitetos como o português Alvaro Siza não conseguiram, apenas, manter um nível construtivo e projetual bastante alto em todos os seus trabalhosos. Nos primeiros anos deste século, Siza soube ir além. Seu Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, demonstra que, aos 76 anos, ainda é capaz de reinventar-se quando lhe permitem fazê-lo. Até o vilipendiado [denostado] e prolífero [prolífico] Santiago Calatrava deu um salto qualitativo com sua nova Estação de Liége, na qual trabalhou por nove anos. Continua infalível, portanto, a máxima: “quem corre riscos comete erros”. Este poderia ser o caso daqueles que, na opinião de muitos, foram durante mais de uma década, os melhores arquitetos do mundo: os suíços Herzog & De Meuron que esgotaram, no início do século XXI, a fórmula dos ‘revestimentos matéricos’ e ‘estampados industriais’ para passar a explorar os ‘poliedros’. Sem dúvida, na última década, Herzog & De Meuron foram tão esbanjadores [se han prodigado tanto] e assumiram tantos riscos – do Estádio de Pequim ao CaixaForum de Madri –, que projetos como o Museu de Young, em San Francisco, ou o edificio de apartamentos da Bond Street, em Nova Iorque, revelam um déjà vu que ninguém gostaria de notar, precisamente nos mestres do momento.
Museu Iberê Camargo, arquiteto Álvaro Siza, Porto Alegre, 1998-2008.

Crédito: Mathias Cramer/temporealfoto.com in http://www.edilportale.com.
Estação ferroviária, arquiteto Santiago Calatrava,  Liége, Bélgica, 2009.

Crédito: Liége-Guillemins TGV Station Photos in http://picasaweb.google.com.
CaixaForum, arquitetos Herzog & De Meuron, Madri, 2001-07.

Crédito: dirk huijssoon in http://www.flickr.com.
De Young Museum, arquitetos Herzog & De Meuron, São Francisco, 2005.

Crédito: Suz & Trev in http://picasaweb.google.com.
Edifício residencial em Bond Street nº 40, arquitetos Herzog & De Meuron, Nova Iorque, 2007.

Crédito: Iwan Baan in http://www.nytimes.com.

A ERA DOS MONUMENTOS DISCRETOS

Será que novos tempos, menos monumentais, nos aguardam ? Com a atual crise, se escolher vencedor de um concurso um projeto ostentatório [ostentoso] pode ser mal visto, ainda que essa questão seja meramente formal, uma decisão aparente: quando o projeto vencedor for construído, já se terão passado cinco ou dez anos. Como saber, hoje, a situação do mundo então ?

Estamos assistindo a uma geração que está substituindo seus heróis. Embora a arquitetura assinada pelos projetistas-estrela se enquadre sempre naqueles 10 % que formam o rol dos melhores edifícios do mundo, são poucos os arquitetos que souberam manter, como Siza Vieira, um alto nível de criatividade e paixão em seus últimos edifícios. A evolução dos projetistas pós-modernos é variável [fluctuante]. Talvez por isso, os novos heróis sejam mais discretos. Apostam num espetáculo mais maduro, numa ‘arquitetura de virtuose’, e num perfil muito mais velado. A celebrada ‘invisibilidade’ [evanescencia] de projetos como o Museu de Toledo ou o New Museum de Kazuyo Sejima & Ryue Nishizawa / SANAA, ou a sobriedade da obra do último ‘Prêmio Pritzker‘, Peter Zumthor, nos fazem pensar que no futuro arquitetônico haverá, sim ‘espetáculo’, porém muito mais sutil. E a maturidade de muitos políticos poderá ser medida nessa aposta. Haverá quem se conforme em continuar comendo pão-de-fôrma [bollería], mas é o aroma da alta pâtisserie [repostería] que se afirmará como ‘inesquecível’.
Se a ‘qualidade’ triunfar sobre a ‘imagem’, as cidades poderão valorizar-se mais por sua ‘marca’ ou identidade – isto é, pelo conjunto de suas edificações –, do que por seus monumentos isolados. Assim, a ‘política de resgate’ – ou de ‘revitalização’ – é outra das iniciativas que a crise consolidou. Ela, agora, é bem-vista. Trabalha-se com a ‘realidade’. Parte-se das ruínas de antigas fábricas ou galerias de lojas, que se transformam em novos museus – como o Palais de Tóquio, que se afirmou como um ícone povera em Paris – ou ainda em pulmões urbanos. Nos subúrbios de Tóquio, o Atelier Bow demonstrou em seu projeto para o Centro Cultural Hanamidori – uma antiga base militar, com árvores plantadas na cobertura –, que a ‘arquitetura’ pode ser também ‘paisagem’. A chamam de ‘parkitectura‘. E também na Espanha difundiu-se esse exemplo: os parques de Cabecera, em Valência, ou a recuperação das margens do rio, em Bilbao, não aparecem nos telejornais diários [Telediario], mas transformam radicalmente as cidades e a vida de seus cidadãos. Tudo o que fazemos ou façamos numa cidade revelará o que somos [hablará de nosotros]. E a atual crise oferece uma oportunidade para refletirmos sobre o que, de fato, desejamos dizer.
Palais de Tokyo, edifício art déco construído em 1937 e revitalizado pelos arquitetos
Anne Lacaton & Jean-Philippe Vassal, Paris, 2001.

Crédito: http://www.paris-360.com.
Centro Cultural Hanamidori, arquiteto Atelier Bow, Tóquio, 2002-05.

Crédito: Alfredo J. Martiz J. in http://parallax.aminus3.com.
Parque de Cabecera, Valência, 2002.

Crédito: Fiammeta in http://www.arteyfotografia.com.ar.

NOTA

1. Pacense: gentílico dos naturais de Badajoz.
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