A Casa Núcleo de Mies van der Rohe, um Projeto Teórico sobre a Habitação Essencial (1)

 Luciana Fornari Colombo

Figura 1: Casa Núcleo, perspectiva Desenho de Luciana Fornari Colombo

Introdução

Quando a industrialização se expandiu ao redor do mundo, a necessidade de habitação para abrigar trabalhadores nas cidades cresceu drasticamente. As duas Guerras Mundiais aumentaram ainda mais o deficit de casas, alimentando também o sonho por um modelo de casa popular acessível a todos. Diversos arquitetos tentaram concretizar este sonho através de experimentos com novas tecnologias industriais, pré-fabricação e produção em massa. Eles acreditavam que se essas técnicas fossem aplicadas a habitação como haviam sido aplicadas a automóveis, a habitação iria melhorar a sua qualidade e tornar-se mais acessível. (2)

Durante e após a Segunda Guerra Mundial, uma nova onda de experimentos em habitação pré-fabricada surgiu especialmente nos Estados Unidos (EUA). Em 1946, o governo dos EUA passou a estimular a indústria de pré-fabricação para garantir casas aos veteranos que retornavam da guerra. Assim, após o término do conflito, fábricas que costumavam produzir aviões de caça passaram a produzir casas pré-fabricadas. Também em torno deste período, o investidor William Levitt desenvolveu técnicas pioneiras de construção em massa que ajudariam a indústria imobiliária a suprir a enorme demanda. Enquanto isso, o arquiteto Buckminster Fuller, aproveitando este momento oportuno, reintroduziu o seu modelo de casa compacta e transportável, a casa Dymaxion, que ele havia desenvolvido alguns anos antes. (3)

Em 1945, a revista Arts & Architecture anunciou uma extraordinária oportunidade para experimentação em arquitetura doméstica: o Programa Case Study House (estudo de caso em habitação), que se estenderia por vinte anos. (4) O objetivo do programa era direcionar a reflexão sobre o conteúdo e a forma da habitação no pós-guerra, através da adoção, tanto quanto prático, de técnicas e materiais desenvolvidas durante o conflito, já que estas técnicas eram consideradas mais adequadas para a expressão do mundo moderno. Com este objetivo, vários arquitetos foram convidados para projetar casas no sul da Califórnia dentro dos limites de um orçamento específico e de códigos de construção comuns, mas sem comprometer os seus princípios arquitetônicos. (5)

Neste contexto pós-segunda guerra de intensa experimentação com tecnologias industriais em habitação, Mies van der Rohe (1886 – 1969) foi contratado para projetar uma casa para Robert H. McCormick (1951-1952). Esta casa foi concebida não apenas para abrigar a família McCormick, mas também, eventualmente, para tornar-se um protótipo de produção em massa. A Casa McCormick foi desenvolvido no escritório de Mies com a colaboração de Joe Fujikawa. A ideia geradora do projeto era transformar um andar da torre de apartamentos que havia sido projetada e construída por Mies recentemente no Lake Shore Drive em uma casa unifamiliar. (6)

Ainda que a casa McCormick nunca tenha sido reproduzida, a sua comissão aprofundou o interesse de Mies por habitação. (7) Logo o arquiteto iniciou o projeto da Casa Núcleo (1951-2) (Figuras 1 e 2) de maneira independente, como pesquisa pessoal e sem o apoio financeiro de um cliente.(8) A Casa Núcleo foi desenvolvida não só no escritório de Mies com a colaboração de Myron Goldsmith, mas também na escola de arquitetura do Illinois Institute of Technology (IIT), onde Mies era professor e diretor, com a colaboração de alunos. Apesar de ter um programa semelhante ao da Casa McCormick, a Casa Núcleo representou uma visão mais artística e arquitetônica. (9)

Mies mostrou-se bastante interessado na Casa Núcleo, dedicando tempo para este projeto mesmo estando ocupado com outros trabalhos importantes como a Crown Hall (1950-6) e a Capela no IIT (1949-52), os quais haviam sido encomendados por clientes. No projeto da Casa Núcleo, sem as restrições impostas por um local ou cliente específicos, Mies teve grande liberdade para refletir sobre a habitação moderna essencial e testar novas ideias. Esta liberdade das demandas de um cliente específico provavelmente representou um alívio para Mies naquele momento. Por volta de 1950, os desentendimentos entre ele e sua cliente Edith Farnsworth tinham aumentado ao ponto de serem levados perante ao juiz em tribunal. Mies processou a Sra. Farnsworth por falta de pagamento e ela processou o arquiteto em resposta. De acordo com Myron Goldsmith, colaborador no projeto da Casa Farnsworth e encarregado da comunicação com a cliente, Mies sentia-se muito deprimido com esta situação. A situação era tão tensa que Goldsmith decidiu deixar o escritório de Mies em 1951 e viajar para uma pausa na Europa. Logo, porém, ele foi chamado para retornar a Chicago, a fim de dar o seu testemunho sobre o caso perante o juiz. Goldsmith lembrou-se que foi durante ou após os julgamentos que ele começou a trabalhar com Mies no projeto da Casa Núcleo. (10)

Figura 2: Casa Núcleo na versão selecionada por Mies van der Rohe para publicação. Planos e elevações Desenho de Luciana Fornari Colombo

A Casa Núcleo

O projeto autoimposto de Mies para a Casa Núcleo consiste em um espaço quadrado vedado com vidro (Figuras 1 e 2). Apenas quatro colunas exteriores sustentam o telhado plano. O interior é livre para ser configurado não com paredes, mas com móveis, cortinas ou divisórias leves baixas, em torno de um núcleo de serviços fixo. Assim, o número, tamanho e posição dos quartos podem ser facilmente adaptados de acordo com as circunstâncias. De fato, a Casa Núcleo foi concebida para adaptar-se a diferentes famílias e locais. Para isso, a casa poderia ser construída em 40, 50 ou 60 pés quadrados (12,19, 15,24 ou 18,28 metros) (11) (Figura 3) e receber diferentes arranjos para o núcleo de serviços (Figura 4). Aberta em todas as direções para a natureza circundante através de grandes painéis de vidro, a casa impõe mínima obstrução à vista, apenas poucas esquadrias e colunas esbeltas. Estas colunas são deslocadas de sua posição habitual, as esquinas, enfatizando o senso de espaço contínuo e criando a percepção do telhado como um plano leve flutuante (Figura 5).

Desenho de Luciana Fornari Colombo

Desenho de Luciana Fornari Colombo

Figura 3: Casa Núcleo, variações de tamanho baseadas em desenhos originais de Mies van der Rohe. O arranjo interno para as versões pequena e grande são hipotéticamente sugerido pela a autora. Os desenhos originais remanescentes para estas plantas não apresentam sugestão de arranjo interno.

Figura 4: Casa Núcleo, variações de arranjo interno para versão 50 x 50 baseado nos desenhos originais de Mies van der Rohe Desenho de Luciana Fornari Colombo

Figura 5: Casa Núcleo, esquema estrutural Desenho de Luciana Fornari Colombo

Cerca de noventa croquis e trinta desenhos técnicos, a maioria feitos com lápis sobre papel, constituem os desenhos remanescentes do projeto da Casa Núcleo. Estes desenhos são mantidos pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA NY). (12) O projeto também inclui uma fotomontagem, cuja imagem é mantida pela Sociedade Histórica de Chicago (Chicago Historical Society). (13) Esta fotomontagem contém uma foto da maquete da Casa Núcleo inserida sobre um fundo natural genérico. A fotomontagem está focada na casa, apenas sugerindo o seu entorno imediato. Da mesma forma, os desenhos técnicos do projeto não indicam um contexto para além das árvores ao redor. Assim, estes desenhos também apresentam um ambiente genérico, nem especificamente urbano ou provinciano, já que muros encerrando o lote poderiam existir a uma distância relativamente próxima. De fato, alguns croquis do arquiteto sugerem a alternativa de lote sub urbano protegido por muros. (14)

A Casa Núcleo adquiriu notoriedade através de seu estudo em sala de aula, (15) bem como de exposições e várias publicações. Estas publicações, no entanto, costumam apresentar o projeto de forma muito breve, em poucas palavras. (16) Esta situação indica o porquê da existência de algumas lacunas no entendimento deste projeto, como será demonstrado. A mais longa revisão histórica da Casa Núcleo identificada foi publicada no Arquivo Mies van der Rohe (Mies van der Rohe Archive), sendo acompanhada pela mais completa coleção de imagens do projeto. (17) Outras fontes importantes são aquelas que apresentam o discurso de Mies van der Rohe sobre a Casa Núcleo, bem como o discurso de Myron Goldsmith como colaborador neste  projeto.

O artigo de Anne Douglas ‘Jantar onde Ontem era o Quarto: É Possível nesta Planta Flexível’ lançado no jornal Chicago Daily Tribune em 24 de agosto de 1952 (18) é a única publicação identificada até o momento que apresenta uma entrevista com Mies onde ele trata especificamente sobre a Casa Núcleo. Sendo a única publicação sobre este projeto que é baseada no discurso do seu autor, ela deve ser considerada a fonte mais confiável que está disponível sobre o tema conforme identificado até o momento. Este artigo também é importante por ser considerado o primeiro a publicar o projeto, logo após a sua conclusão. Além da entrevista, o artigo de Douglas apresenta uma versão da planta (Figura 2) e uma fotomontagem. (19)

Neste artigo inaugural, a jornalista dá nome ao projeto apresentado em duas passagens: ‘Ludwig Mies van der Rohe, arquiteto conhecido internacionalmente, projetou esta casa “núcleo” como uma solução para famílias de diversos tamanhos e necessidades’, e ‘Ele está trabalhando em estimativas de custo para a “casa núcleo” e acredita que chegará perto dos $30.000 – $40.000 dólares conforme objetivo inicial’. (20) Nestes trechos, a jornalista aplica aspas ao nome da casa, sugerindo que este nome não é de sua autoria, mas do próprio arquiteto. Realmente, outras aspas aplicadas ao longo do texto são usadas claramente para indicar declarações do arquiteto. O nome Casa Núcleo ressaltaria a ideia de um núcleo de serviços compacto que se torna bem definido através da mínima utilização de paredes (Figura 6). De acordo com Douglas: ‘O coração desta casa é o núcleo…’. (21)

Desenho de Luciana Fornari Colombo

Figura 6: Arranjo interno original da Casa Núcleo, conforme proposto por Mies van der Rohe à esquerda; Uma versão hipotética do interior da Casa Núcleo com divisórias convencionais à direita. O nome Casa Núcleo enfatiza a ideia de um núcleo de serviços bem definido através do mínimo uso de paredes maciças.

Apesar de ter sido lançado com o nome ‘Casa Núcleo’, este projeto tornou-se popular, mais tarde, como ‘Casa 50 x 50′. O primeiro autor a utilizar este nome foi Philip Johnson (22) na primeira monografia publicada sobre o trabalho de Mies van der Rohe. Este livro tornou-se uma referência muito influente sobre o assunto, em contraste com o artigo de Douglas que tem sido raramente citado. (23) De fato, os desenhos remanescentes do projeto sugerem que Mies desenvolveu em detalhes apenas a versão 50 x 50 pés da Casa Núcleo. Além disso, dois desenhos originais da planta selecionada para publicação apresentam uma legenda onde se lê ‘Casa 50 x 50’.

Entretanto, dentre os demais desenhos do projeto, duas plantas apresentam tamanhos alternativos, 40 x 40 e 60 x 60 pés respectivamente. (24) Além disso, o artigo do Chicago Tribune baseado no discurso de Mies confirma que a casa poderia ter estes diferentes tamanhos. Portanto, os raros autores que corretamente apresentam este projeto como uma casa que ‘poderia ser construída em 40, 50 ou 60 pés quadrados’, (25) têm adotado um nome inconsistente, ‘Casa 50 x 50’, o que representa um obstáculo à compreensão mais profunda do projeto (ainda mais considerando-se que os seus desenhos técnicos indicam 48 x 48 pés). Com efeito, tal como sugerido no artigo do Chicago Tribune, Mies utilizava um nome diferente para melhor expressar o caráter do projeto. Outros autores próximos do arquiteto, Hilberseimer (26) e Blaser (27) por exemplo, também utilizaram outros nomes, Casa Quadrada e Casa de Vidro com Quatro Colunas respectivamente, embora ambos não tenham mencionado as possíveis variações de tamanho do projeto. Assim, pode-se concluir que, até o momento, a literatura histórica tem apresentado apenas uma variação de um projeto mais amplo que, nestes termos, permanece desconhecido. O nome Casa Núcleo, com base nas evidências apresentadas anteriormente, pode ser considerado mais adequado e fiel às intenções originais do arquiteto.

Na entrevista apresentada por Douglas, Mies afirmou que o projeto da Casa Núcleo foi motivado não pela solicitação de um cliente em particular, mas por uma necessidade em geral:

‘Uma dúzia de pessoas veio até nós nos últimos anos pedindo uma casa moderna na faixa de $30.000 a $40.000 dólares. Respondemos que era difícil trabalhar casas individuais, pois o trabalho não tem relação com o custo da casa … Como parece haver uma necessidade real por tais casas, temos tentado resolver o problema…’. (28)

Em resposta a essa demanda genérica, Mies projetou a Casa Núcleo amplamente livre de restrições e interferências externas, inclusive econômicas, pois, de acordo com o arquiteto, ‘…uma habitação não pode ser feita apenas a partir de um ângulo econômico’ (29) e ‘…o homem também tem as necessidades de sua alma’. (30) Desta forma, uma visão mais ampla do pensamento de Mies indica que a Casa Núcleo deriva originalmente não da busca por uma casa de preço acessível, mas por uma casa em harmonia com as demandas espirituais da época, com um modo de vida moderno.

De acordo com Myron Goldsmith, colaborador na concepção da Casa Núcleo, este projeto surgiu do interesse de Mies por uma casa adaptável a diferentes famílias e lugares. Goldsmith declarou que Mies projetou esta casa independentemente, como um auto desafio sobre o tema, sem saber como ou se um dia ela seria construída. (31) Goldsmith também apontou as principais ideias sobre as quais Mies van der Rohe refletiu e testou neste projeto. Elas foram: a arquitetura como pano de fundo para as pessoas; o mínimo uso de elementos; o quão longe se pode ir em um espaço unificado (o que deve ser fechado, o que pode ser aberto); o quão longe se pode ir na simplificação da ideia de habitação e como viver dentro dela. Como um experimento ao invés de uma solução de arquitetura para uma família específica, Goldsmith concluiu que não se deveria esperar que todas as ideias apresentadas na Casa Núcleo funcionariam sob qualquer circunstância. (32)

Apresentada por Goldsmith como um auto desafio independente de cliente, local ou da necessidade de diretamente construir, esta casa pode ser compreendida como um projeto teórico. Esta natureza teórica é confirmada por Douglas em seu artigo, o qual não associa local ou cliente específico ao projeto. De acordo com este artigo, a nota de individualidade da casa dependeria do lugar específico onde fosse construída, e ainda que a casa seria flexível o bastante para servir ‘não apenas às variações de necessidade de uma família, mas às diferentes necessidades de famílias diferentes’. (33) Finalmente, estas fontes confirmam que não havia nenhum investidor imobiliário por trás do projeto. Apesar disso, Goldsmith apontou que o caráter especulativo deste trabalho era frequentemente mal compreendido, e que mesmo o público educado demonstrava dificuldades para identificar o projeto como ideias a explorar, ao invés de soluções definitivas. (34)

O projeto da Casa Núcleo foi desenvolvido tanto quanto apropriado, considerando-se que ele não era financiado por um cliente e que não havia expectativas de construí-lo diretamente. (35) Sua estrutura, por exemplo, nunca foi propriamente calculada. A estrutura projetada para esta casa é desafiadora, enquanto o tempo dedicado ao seu desenvolvimento não foi suficiente para a formulação de uma solução definitiva. A liberdade para experimentação neste projeto deu margem a outras características inusitadas, como sua grande abertura tanto para o exterior como para o interior e mínima área de armazenamento. (36)

Considerando o contexto mais amplo da carreira de Mies, a Casa Núcleo representou uma oportunidade para testar o conceito de Pavilhão de Vão Livre (Clear Span Pavilion) (37) em habitação unifamiliar. Este conceito que se tornou preponderante no trabalho de Mies em sua fase americana havia sido aplicado antes da Casa Núcleo apenas em edifícios institucionais, como a Sala de Concertos (Concert Hall, 1942), ou em um programa não tão comum, uma casa de férias para apenas uma pessoa, a Casa Farnsworth (1946-1951). O mínimo uso de partições no qual o conceito de ‘Pavilhão de Vão Livre’ se baseia realmente representaria um grande desafio para uma casa unifamiliar, já que este programa exige mais privacidade entre diferentes atividades e habitantes. Assim, na Casa Núcleo, Mies tentaria expandir a aplicabilidade deste conceito para habitação em geral, superando o caráter inusitado do programa da Casa Farnsworth.

A Casa Núcleo tornou-se um projeto original na carreira de Mies van der Rohe por introduzir o pavilhão de vão livre com planta quadrada e mínimo número de apoios. Mies aplicou este tipo pavilhão em vários projetos institucionais que se seguiram. Eles são o Hall de Convenções em Chicago (1952-4), de longe o maior espaço já projetado por Mies, a Sede da Companhia Bacardi em Cuba (1957-1960), o Museu Georg Schaefer (1960-3), e a Nova Galeria Nacional em Berlim (1962 -8), obra-prima madura de Mies, onde o pavilhão quadrado foi finalmente materializado (Figura 7). Desta forma, todos esses projetos encomendados por clientes encontram sua expressão inicial no projeto teórico para a Casa Núcleo.

Desenho de Luciana Furnari Colombo

Figura 7: Casa Núcleo e projetos posteriores encomendados por clientes à Mies van der Rohe: Hall de Convenções em Chicago, Sede da Bacardi em Cuba, Museu Georg Shaefer e Nova Galeria Nacional em Berlim.

Quando aplicado em projetos seguintes, o esquema da Casa Núcleo foi adaptado para atender a situações específicas. Por exemplo, para proteger o interior do edifício Bacardi do sol tropical de Cuba, Mies recuou os panos de vidros, introduzindo uma galeria externa. O resultado mostrou-se ainda mais universal, sendo reutilizado mais tarde no Museu Georg Schaefer e na Nova Galeria Nacional em Berlim, projetos para climas temperados. Da mesma forma, a estrutura da Casa Núcleo provou ser desafiante demais para ser construída devido aos seus extensos balanços. Assim, nesses projetos encomendados, Mies dobrou o número de colunas, porém ainda mantendo os cantos e o interior livres de suportes.

A influência da Casa Núcleo não se limita ao trabalho de Mies van der Rohe. Um exemplo claro capaz de evidenciar esta afirmação é encontrado na obra de Myron Goldsmith, colaborador e ex-aluno de Mies. A influência da Casa Núcleo é explícita na proposta de Goldsmith para o Pavilhão de Exposições do Aço na Feira Mundial de 1964. Este projeto basicamente adota a estrutura da Casa Núcleo, mas em um tamanho colossal, 300 x 300 pés (aproximadamente 90 x 90 metros), para demonstrar as possibilidades do aço de uma forma espetacular. (38) Este projeto difere da Casa Núcleo, pois, além de ser maior, ele tem uma grelha de vigas diagonal ao invés de ortogonal sustentando a cobertura. A alternativa em diagonal também havia sido testada no projeto da Casa Núcleo, mas foi abandonada na versão final. (39)

A influência da Casa Núcleo também pode ser percebida no Pavilhão de Automóveis de Ben Rose (Figura 8) projetado por David Haid, também ex-aluno de Mies van der Rohe. O pavilhão foi construído em 1974 no luxuoso bairro de Highland Park, em Chicago (IL) como anexo da casa de Ben Rose (1952-4), que havia sido projetada por A. James Speyer, outro ex-aluno de Mies. O pavilhão foi concebido para abrigar a coleção de automóveis do Sr Rose. Este edifício tornou-se popular por sua marcante aparição no filme Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller´s Day Off, 1986). (40) Assim como a Casa Núcleo, este pavilhão para carros é apoiado sobre apenas quatro colunas externas recuadas das esquinas do edifício. O pavilhão de Haid, no entanto, foi elevado para adaptar-se ao terreno inclinado, e as colunas foram localizadas em duas fachadas opostas, adequando a estrutura à planta levemente retangular e facilitando a construção. Tal disposição de colunas também havia sido testada no projeto da Casa Núcleo, mas foi abandonada posteriormente. Atualmente, o Pavilhão para carros de Ben Rose é considerado um dos mais importantes exemplares de arquitetura moderna em Chicago. (41)

Conclusão

Apesar da vasta literatura disponível sobre o trabalho de Mies van der Rohe, ainda é possível identificar lacunas significativas sobre o assunto. Conforme demonstrado anteriormente, as possíveis variações de tamanho da Casa Núcleo têm sido em geral negligenciadas, o que torna-se evidente na maneira como o projeto tem sido comumente denominado. É preciso ressaltar ainda que a clara identificação do projeto mais amplo do qual a Casa 50 x 50 deriva  não nega a autonomia desta última, mas, ao contrário, possibilita o mais profundo entendimento de sua origem e essência. Por exemplo, tendo a Casa Núcleo como matriz, o tamanho específico 50 x 50 pés torna-se menos relevante do que qualidades como grande continuidade alcançada através do mínimo uso de partições e de um núcleo de serviços compacto.

Apesar de poder ter diferentes tamanhos, depois de muitas décadas a Casa Núcleo não se tornou uma casa produzida como uma peça de roupa nos tamanhos pequeno, médio e grande. Explicar este destino por uma certa falta de privacidade enquanto se exalta a transparência e fluidez da casa, é estabelecer um paradoxo, pois estas qualidades são associadas. Além disso, as formas propostas por Mies têm sido em geral mais viáveis com clientes ricos, (42) impondo dificuldades à sua popularização. Mas acima de tudo, como foi demonstrado, não havia expectativas de que a Casa Núcleo seria diretamente construída. Ainda que se considerasse a possibilidade de reproduzi-la em massa no futuro, (43) esta casa havia sido originalmente concebida como um experimento onde, sob circunstâncias ideais, o arquiteto seria capaz de desafiar certos conceitos de arquitetura e testar seus limites. De fato, a Casa Núcleo apresenta ideias incomuns e radicais, muitas delas tendo de ser adaptadas a circunstâncias concretas e práticas antes de poderem ser aplicadas a projetos posteriores encomendados visando a construção imediata. No entanto, conforme demonstrado, mesmo que por vezes adaptados, os conceitos formulados na Casa Núcleo foram capazes de inspirar projetos seguintes de maneira bem-sucedida. Assim, considerar a Casa Núcleo apenas como um projeto com demasiada falta de praticidade para ser construído é negligenciar as suas importantes realizações. Em vez de um protótipo que não deu certo, a Casa Núcleo pode ser mais adequadamente considerada como uma fonte de alternativas para expandir certos limites estabelecidos.

Neste sentido, a Casa Núcleo pode ser considerada um exemplo notável de projeto teórico, ou seja, de um projeto realizado de forma independente, como um auto desafio. Este tipo de projeto permite ao arquiteto testar e desenvolver livremente ideias arquitetônicas genéricas, para ninguém e nenhum lugar em específico, capazes de inspirar projetos futuros. Neste sentido, projetos teóricos não são apenas projetos não edificados. Eles fornecem uma apropriada oportunidade para colocar a arquitetura em frente de seus limites disciplinares.

Outros projetos teóricos realizados por Mies van der Rohe também desempenharam um importante papel na carreira do arquiteto. No início da década de 1920, radicais mudanças no trabalho de Mies foram notavelmente baseadas em uma série de projetos com alto teor teórico. Eles são o arranha-céu na Friedrichstrasse (1921), Arranha-céu de Vidro (1922), Edifício de Escritórios em Concreto Armado (1922-3), Casa de Campo em Concreto Armado (1923), e Casa de Campo em Tijolos (1923-4). (44) De fato, neste período, as mudanças na obra de Mies se concentraram muito mais em seus trabalhos teóricos do que nos trabalhos encomendados por clientes para construção. Em 1930, seguindo o impacto da Crise de 1929, novas construções tornaram-se raras, diminuindo as oportunidades de trabalho para arquitetos. Voltando-se para o ensino, Mies desenvolveu estudos inovadores de casas, novamente, através de uma série de projetos teóricos: Casa em Fileira (Row House, 1931), Casa Pátio com Garagem (1934), Casa com Três Pátios (1934-5), Casa nas Montanhas (1934), e Casa de Vidro em Encosta (1934). Depois de emigrar para a América, Mies continuou a produzir com seus alunos importantes projetos teóricos, desta vez ligados ao conceito do pavilhão de vão livre: Museu para uma Pequena Cidade (1940-3), Sala de Concertos (1941-2), Teatro (1947) e Casa Núcleo (1951-2).

Em seus projetos teóricos, Mies desenvolveu novos rumos para o seu trabalho. Por exemplo, a ideia de um arranha-céu de vidro foi visualizada a princípio em projetos teóricos e somente décadas depois materializada, primeiramente no 860-880 Lake Shore Drive (1948-51). Enquanto isso, a abordagem única de Mies para a planta livre apresentada na Casa de Campo de Tijolos foi materializada e desenvolvida posteriormente em obras como o Pavilhão Alemão em Barcelona (1928-9). Da mesma forma, foi na Sala de Concertos (1942) que um dos principais temas de sua fase americana, o Pavilhão de Vão Livre, foi claramente introduzido pela primeira vez. Através de exposições, publicações e de exercícios em sala de aula, os projetos teóricos de Mies passaram a influenciar também o trabalho de outros arquitetos.

Em 1959, Mies foi perguntado se ele frequentemente concebia edifícios por conta própria, sem receber o pedido de um cliente. Ele respondeu:

‘Isso é interessante porque a maioria dos nossos projetos são desenvolvidos muito antes de surgir uma possibilidade prática de construí-los. Eu faço isso de propósito e o tenho feito por toda minha vida. Eu faço isso quando estou interessado em algo. Eu faço-o apenas na esperança de que um dia as pessoas vivam neste edifício e o apreciem.’(45)

Além de inovar e influenciar trabalhos posteriores tanto quanto diversos projetos construídos, a Casa Núcleo também é importante como um exemplar cristalino de arquitetura moderna, expressando o contexto histórico e cultural no qual ela foi desenvolvida. Porém, assim como acontece com obras de arte superiores, este projeto transcende a sua própria geração. Depois de muitas décadas, esta casa não perdeu suas qualidades inovadoras, oferecendo ainda hoje uma maneira moderna de suprir a necessidade diária de abrigo. Além de todas as suas influências e repercussões, o valor do projeto da Casa Núcleo também reside nele mesmo, no seu efeito purificador sobre as questões fundamentais da arquitetura. Esta proposta original representa a realização de uma bela aparição em vidro, quase imaterial e infinita.

notas1
Este artigo é uma versão adaptada e revisada do texto: Luciana F. Colombo. The Core House by Mies van der Rohe: an Exercise of Imagination on the Essential Dwelling. In: Michael Chapman (Ed); Michael Ostwald (ed.)Imagining… Proceedings of the 27th International SAHANZ Conference. The University of Newcastle, Australia, June 2010, 139-44.

O tópico apresentado neste artigo está sendo desenvolvido pela autora em sua tese ´Projetos Teóricos de Arquitetura: Natureza e Significado através da Obra de Mies van der Rohe´ supervisionada pela Profa. Julie Willis na Universidade de Melbourne, Austrália. Para desenvolver esta tese, a autora também recebeu o apoio da bolsa Norman Macgeorge Bequest.

2
Alison Arieff. Pre fab. Layton: Gibbs Smith, 2002, 13.3
Arieff. Pre fab, 21, 27.4
Arieff. Pre fab, 27. e David Travers; About Arts & Architecture; Santa Monica, CA: January 2007; Disponível em: http://www.artsandarchitecture.com/about.html5
John Estenza. Announcement: The Case Study House Program. Arts & Architecture, January 1945, 37-9; Disponível em: http://www.artsandarchitecture.com6
Joe Fujikawa entrevistado por Kevin Harrington. Transcrição não publicada.Mies and American Colleagues Oral History Project – Joe Fujikawa. Canadian Centre for Architecture collection, Montreal, 1996, 1237
Myron Goldsmith entrevistado por Kevin Harrington. Transcrição não publicada. Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith. Canadian Centre for Architecture collection, Montreal, 1996, 1198
Goldsmith, Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith, 1179
Goldsmith, Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith, 116-710
Goldsmith, Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith, 73, 10111
Anne Douglas. ‘Dinner in Yesterday’s Bedroom: It’s Possible in This Flexible Plan’. Chicago Daily Tribune Aug 24, 1952.12
Estes desenhos foram publicados em Franz Schulze; Arthur Drexler. The Mies van der Rohe Archive, New York: Garland Pub., 1986, v15.13
Os arquivos da Sociedade Histórica de Chicago estão disponíveis em: http://www.chicagohistory.org/research

A fotomontagem da Casa Núcleo está disponível em:  http://chsmedia.org/media/hb/01/HB15412a.jpg

14
Ver desenho 5016.111 em Franz Schulze.; Arthur Drexler. The Mies van der Rohe Archive, New York: Garland Pub., 1986, v15, 10.15
Ver trabalhos de estudantes em Rolf Achilles; Kevin Harrington, et al. Mies van der Rohe, architect as educator. Chicago: University of Chicago Press, 1986, 145.16
Por exemplo, este é o caso dos livros escritos por Philip Johnson (Mies van der Rohe. 3. ed. New York: Museum of Modern Art, 1978 [1953, 1947]), Ludwig Hilberseimer (Mies van der Rohe. Chicago: Theobald, 1956), Arthur Drexler (Ludwig Mies van der Rohe. New York: G. Braziller, 1960), Werner Blaser (Mies van der Rohe: the art of structure. London: Thames & Hudson, 1993 [1965]), Peter Carter (Mies van der Rohe at work. London: Phaidon, 1999 [1974]), Jean-Louis Cohen (Ludwig Mies van der Rohe. Basel: Birkhauser, 2007 [1996]), Fernandez-Galiano et al (Mies van der Rohe: Berlin/Chicago. Madrid, España: Arquitectura Viva, 2001 AV monografías, 92) entre outros. Alguns autores ainda preferem omitir este projeto. Tegethoff (Mies van der Rohe: the villas and country houses. New York; Cambridge: Museum of Modern Art; MIT Press, 1985, 13), por exemplo, apesar de dedicar seu livro aos projetos residenciais de Mies, opta por não apresentar a Casa Núcleo. De acordo com Tegethoff esta casa, assim como a Casa McCormick, compreendem nada mais que variações sobre o tema da Casa Farnsworth e, assim, não ofereceriam nada de novo às afirmações que ele pretendia fazer.17
Franz Schulze; Arthur Drexel. The Mies van der Rohe Archive, New York: Garland Pub., 1986, v15, 2.18
Douglas, ‘Dinner in yesterday’s bedroom’.19
Esta fotomontagem está disponível em http://chsmedia.org/media/hb/01/HB15412a.jpg20
Douglas, ‘Dinner in yesterday’s bedroom’.21
Douglas, ‘Dinner in yesterday’s bedroom’.22
Philip Johnson. Mies van der Rohe, New York: Museum of Modern Art, 1978 [1953, 1947], 169.23
Apenas Franz Schulze. Mies van der Rohe: a critical biography. Chicago: University of Chicago Press, 1985, 261, e Franz Schulze.; Arthur Drexler.The Mies van der Rohe Archive, New York: Garland Pub., 1986, v15, 2.24
Ver desenhos 5016.87 e 5016.88 em Franz Schulze; Arthur Drexler. The Mies van der Rohe Archive, New York: Garland Pub., 1986, v15, 23.25
Schulze; Drexler. The Mies van der Rohe Archive, 2.26
Ludwig Hilberseimer. Mies van der Rohe, Chicago: Theobald, 1956, 62.27
Werner Blaser. Mies van der Rohe: the art of structure. London: Thames & Hudson, 1993 [1965], 122.28
Ludwig Mies van der Rohe in Douglas, ‘Dinner in Yesterday’s Bedroom’.29
Mies van der Rohe, 1927-8?, in Fritz Neumeyer. The artless word: Mies van der Rohe on the building art. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1991, 27230
Mies van der Rohe, 1927-8? in Neumeyer, The artless word , 27431
Myron Goldsmith. Betty J Blum. Oral History of Myron Goldsmith Interviewed by Betty J. Blum. Chicago Architects Oral History Project, 2001 [1986], 73-8. Available at:<digital-libraries.saic.edu/u?/caohp,3934>

32
Goldsmith, ‘Oral History of Myron Goldsmith’, 73-7733
Douglas, ‘Dinner in yesterday’s bedroom’.34
Goldsmith, ‘Oral History of Myron Goldsmith’, 73-7735
Goldsmith, Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith, 12136
Goldsmith, Mies and American Colleagues Oral History Project – Myron Goldsmith, 117-837
O termo ‘Edifício de Vão Livre’ foi provavelmente introduzido por Peter Carter. Mies van der Rohe at work. London: Phaidon, 1999 [1974].38
Myron Goldsmith. Werner Blaser Buildings and concepts: Myron Goldsmith. New York: Rizzoli, 1987, 7039
Phyllis Lambert. ‘Mies Immersion’ in Lambert et al. Mies in America. New York: H.N. Abrams, 2001, 461; Schulze et al., The Mies van der Rohe Archive, v.15, 25, 52.40
Franz Schulze. Landmarks Illinois 2009-2010 Chicagoland Watch list: Rose House and Pavilion. Chicago: Landmarks Illinois, 2009. Available at: http://www.youtube.com/watch?v=cY6-Z4ZNA54&feature=PlayList&p=1FD584394ECD5AE1&playnext_from=PL&index=041
Schulze. Landmarks Illinois 2009-2010 Chicagoland Watch list: Rose House and Pavilion.42
William J R Curtis. Modern Architecture since 1900. Phaidon: London, 3 ed, 2009, 40943
Esta possibilidade foi considerada por Mies, conforme descrito no último parágrafo do manuscrito para o artigo publicado por Anne Douglas em 1952, o qual pertence à coleção de documentos do arquiteto mantida pelo Museu de Arte Moderna em Nova Iorque. Entretanto este parágrafo foi omitido no artigo publicado. Talvez Mies já tivesse desenvolvido a opinião apresentada em entrevista de 1959 (Shankland, The Listener, p622): “Eu considero que o valor da pré fabricação está em obter elementos que podem ser usados livremente, assim como temos portas e banheiras…  prefabricar ou estandardizar uma casa de cima a baixo é muito complicado… seria terrivelmente monótono. Eu acho que isso não irá acontecer”.44
Nem todos os projetos citados são puramente teóricos, embora todos tenham alto caráter teórico. O Arranha-céu para Friedrichstrasse, por exemplo, não é puramente teórico. Sendo um projeto desenvolvido para concurso de arquitetura, ele foi restringido pelo local específico e pelas regras do concurso, como o limite de altura. Estas restrições seriam superadas no projeto puramente teórico de arranha-céu de vidro que se seguiu.45
Mies van der Rohe 1959; in Mies van der Rohe, Moisés Puente; Iñaki Abalos.Conversations with Mies van der Rohe. English. ed. New York: Princeton Architectural Press, 2008, 17.

sobre a autora

Luciana Fornari Colombo possui Graduação em Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Brasil, 2007 e é Pós-graduanda em Arquitetura, Universidade de Melbourne, Austrália, previsão de conclusão em 2012.

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