Nicolai Ouroussoff para New York Times: “Koolhaas, delírio em Pequim”

25.07.2011

Sede da CCTV, em Pequim, em fase de conclusão - Philippe Ruault

Em artigo publicado pelo The New York Times no último dia 13 de julho e traduzido pela Folha de S.Paulo no dia 25 de julho, o crítico de arquitetura Nicolai Ouroussoff fala sobre a polêmica obra de Koolhaas que talvez seja a “maior obra arquitetônica construída neste século” e a segunda mais polêmica, depois do novo World Trade Center. Trata-se da sede da emissora estatal chinesa CCTV, em Pequim, que está prestes a ser concluída. Veja a íntegra do texto traduzido pela Folha abaixo:

Exceto pelo novo World Trade Center, é difícil pensar em um projeto arquitetônico mais polêmico nos últimos anos do que a sede da emissora estatal chinesa CCTV.

Quando Rem Koolhaas -responsável pelo projeto, junto com Ole Scheeren- apresentou o desenho, em 2003, foi atacado por jornalistas ocidentais por glorificar um órgão de propaganda.

Um crítico chinês disse que a forma contorcida do prédio se baseava em uma mulher nua, apoiada nas mãos e joelhos. Koolhaas desmentiu essa teoria.

Mas a sede da CCTV pode ser a maior obra arquitetônica construída neste século. Koolhaas sempre se interessou por fazer edifícios que exponham as energias conflitantes que agem na sociedade, e o prédio da CCTV é a expressão máxima disso.

Koolhaas foi chamado para o projeto no final de 2002, na mesma época em que o convidaram para participar dos planos para o Marco Zero, em Manhattan.

Ele decidiu que não poderia aceitar ambos, e achou que a obra no Marco Zero se tornara tão carregada do ponto de vista político e emocional que nada de real valor arquitetônico poderia surgir ali.

O prédio que ele desenhou para a CCTV fez mais do que qualquer outro projeto para lustrar a reputação de Pequim como cidade do futuro. Hoje em fase de conclusão, ele já é uma parte bem visível da paisagem urbana desde o final da década passada. Suas duas torres de 50 andares, que abrigam escritórios e estúdios de produção, são unidas no topo por uma ponte de 13 andares, cuja forma angulosa se projeta sobre uma praça.

Essas pernas se estreitam ao subirem até alturas ligeiramente diferentes, distorcendo a perspectiva, e Koolhaas reprime todos os sinais mais evidentes de escala humana. À distância, é praticamente impossível ter uma noção do tamanho do edifício. De determinado ângulo, o prédio pode parecer sombrio e ameaçador. De outro, as pernas parecem quase frágeis. A partir de um terceiro, o teto inclinado da ponte dá à construção uma qualidade bidimensional.

Koolhaas também lidou com questões mundanas de funcionamento do edifício. Ele se ergue sobre um pedestal de concreto, contribuindo com a sensação de que é um mundo monolítico, desconectado da vida da cidade. Mas essa impressão muda quando você caminha lá dentro.

O saguão principal, em uma estrutura baixa na base de uma das torres, é uma justaposição de formas conflitantes. A luz penetra por grandes claraboias em formato de paralelogramo. As paredes são inclinadas em dois lados. Uma passarela cruza o espaço na direção dos elevadores. Dela você enxerga vários andares para baixo, num vertiginoso submundo de escadas rolantes, vigas e pontes.

Uma entrada à parte, num lado do saguão, leva a uma ampla escadaria que desce até um espaço de exposições. Para cima das escadas, uma sala VIP envidraçada dá vista para o saguão. Outra escada sobe a um jardim numa praça destinada aos funcionários. As pessoas nesses espaços manterão um constante contato visual, mas raramente irão se misturar.

O acesso do público ao edifício será limitado àquilo que Koolhaas chama de “volta”: uma sequência de espaços para exposições, restaurantes e mirantes que sobem por uma torre, cruzam a ponte e descem na outra.

A certa altura você vai parar num mirante, no ângulo da ponte, com três grandes janelas circulares. Visto daqui, o jardim se revela como uma versão do mapa de uma Roma imaginária que Piranesi incluiu na série de gravuras “Il Campo Marzio dell’Antica Roma”, do século 18.

O mapa representa um ideal urbano, no qual a grandiosidade das cidades parece derivar de um choque de visões arquitetônicas construídas ao longo dos séculos.

Na sua alusão a uma cidade vigorosa, construída sobre as ruínas de um império outrora poderoso, o jardim é uma óbvia alegoria para a China. Koolhaas parece estar nos lembrando que todos os impérios desaparecem; são os triunfos culturais -inclusive os grandes edifícios- que restarão como o testemunho mais duradouro daquilo que fomos e do que esperávamos nos tornar.

Via: Arqbacana

Artigo original via The New York Times!

Artigo via Arqbacana

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