A modernidade dos antigos ou vice-versa

Como a arquitetura moderna fez uso da tradição greco-romana

Pedro Paulo Funari

Resenha do livro

Antigos modernos

Estudos das doutrinas arquitetônicas nos séculos XVII e XVIII

Ricardo Marques de Azevedo

2009

Ricardo Marques de Azevedo, professor da FAU/USP, possui larga trajetória acadêmica, no campo dos estudos arquitetônicos, a partir de uma abordagem filosófica e histórica. Este volume representa uma reelaboração da sua tese de livre-docência, à luz das reflexões recentes, centrado nas apropriações modernas da Antiguidade Clássica. Como lembra a professora Andrea Buchidid Loewen, a obra explora a transição de uma noção de Antiguidade coesa e homogênea, padrão a ser seguido e imitado, para concepções mais amplas e variadas, à luz do Iluminismo, nas quais a Arquitetura deveria ser compreendida não apenas pela razão, como também pela imaginação.

O debate foi fascinante. Nos ambientes letrados de língua culta alemã, em meados do século XVIII, defendia-se o estabelecimento de uma nova displina filosófica, a Estética, voltada para o estudo da sensibilidade, segundo a própria etimologia do termo aisthesis, “percepção”. Esta forma de conhecimento foi considerada inferior à cognição superior racional. Um preceito antigo, já presente em Horácio, na Arte Poética, reiterado até a emergência do Iluminismo, estabelece a perfeição das artes no agradar, comover e instruir, ao despertar ímpetos nobres e tocantes: “os poetas desejam ou ser úteis, ou deleitar, ou dizer coisas ao mesmo tempo agradáveis e proveitosas para a vida”.

Ricardo Marques de Azevedo volta-se, então, para os achados arqueológicos do século XVIII, já que os estudos arqueológicos rigorosos e sistemáticos são obra também do século das Luzes e são decisivos para as reavaliações dos referentes e parâmetros das doutrinas artísticas aventadas à época. A divulgação da descobertas de Pompeia e Herculano contribuiu para desautorizar a noção de homogeneidade, coerência e autoridade dogmática dos antigos. No final do século XVIII, a apreciação da Antiguidade Clássica como um período coeso e homogêneo, contrastada pelo estudo inicial dos vestígios arqueológicos, esboroava-se. Como resultado, era questionada a autoridade dos antigos autores gregos e latinos como paradigma íntegro e confiável para a avaliação moderna das Artes. Ao ressaltar o caráter artístico da Arquitetura, autores como Boullée e Ledoux defendiam que a Arquitetura, como atividade da imaginação, era apenas de forma parcial também construção, em contraposição à tradição que remontava ao romano Vitrúvio. O arquiteto concebe imagens voltadas à geração de emoções, antes e mais do que resumir-se à construção. Neste sentido e no limite, a concepção não precisa estar submetida à sua possibilidade concreta, de modo que o projeto arquitetônico não precisaria nem mesmo ser construtível. Rompia-se, pois, com as tradições, com as ordens ancestrais, em busca de abstrações ideais.

No decurso do século XVIII, diversos teóricos da Arquitetura distiguiam tipo e modelo, este último abstrato, sendo o tipo uma construção histórica. Também neste caso, como em tantos outros, a Filologia servia de parâmetro para classificações e ordenações do pensamento, com referência, portanto, à linguagem. A oratória arquitetônica devia considerar os requisitos da eloquência, numa prosódia que conjugaria a exaltação da expressividade à exatidão dos preceitos retóricos e das prescrições sintáticas. Neste sentido, o autor discorda de parte da historiografia, designada como apologética, sobre o movimento moderno, ao radicar as suas origens no século XIX, pois já no século anterior recurou-se a ideia de uma natureza perfectível, ao sabor da ciência. Portanto, gênese e progresso, triunfo anunciado do esclarecimento sobre as sombras, são temas iluministas retomados pelos modernistas. A própria noção de profilaxia social, tão característica da Arquitetura moderna do século XX, reinterpreta preceituações oriundas da Luzes, com seus vetores éticos e pedagógicos e visando à regeneração política.

A volume completa-se com uma grande quantidade de imagens dos séculos XVII e XVIII que ilustram, de maneira exemplar, as maneiras de retratar e representar edifícios e temas arquitetônicos em geral. Obra de agradável leitura, constitui uma contribuição relevante não apenas para os estudiosos da Arquitetura, como para historiadores, arqueólogos e outros cientistas humanos e sociais interessados em temas centrais para a modernidade, como, em particular, a relação com a tradição, por um lado, e a engenharia social, por outro. Em pleno século XXI, ambas questões continuam atuais e inquietantes. Por um lado, os usos do passado, a apropriação de tradições ou a propugnação de rupturas e clivagens caracterizam nossa época de forma marcada. Por outro lado, e de forma a um só tempo contraditória e complementar, toda a modernidade foi marcada pelo esforço iluminista e racional de controlar a vida social e, para isso, tem contribuído a Arquitetura e o Urbanismo, em algumas de suas vertentes. As reflexões de Ricardo Marques de Azevedo levam os leitores a questionar, em termos práticos e teóricos, posturas, pontos de vista e práticas atuais, que às vezes parecem desencarnadas do seu passado. O volume, além de leitura agradável, deixa o leitor alerta e aberto à uma vivência refletida do presente, na esteira de Sócrates, em sua advertência que apenas uma vida crítica merece ser vivida (Apologia 38a).

sobre o autor

Pedro Paulo A. Funari, bacharel em História (1981), mestre em Ciências Sociais (Antropologia Social 1986) e doutor em Arqueologia (1990), sempre pela Universidade de S. Paulo, livre-docente em História (1996) e Professor Titular (2004) da Unicamp, Coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp (www.gr.unicamp.br/ceav), desde 2010. Professor de programas de pós da UNICAMP e USP, líder de grupo de pesquisa do CNPq, assessor científico da FAPESP. Supervisionou 12 pós-doutoramentos, 22 doutoramentos, 30 mestrados, destacados pesquisadores e líderes em instituições de prestígio (Oxford University, Université de Mulhouse, UNICAMP, UNESP, UFF, UFMG, UFPR, UFRJ, UNESP, MASJ, UEL, UFPel, UCS, UEMG, UEM, UMESP, Uniplac, PUCPR, FESB, UNIFAP, UFS, UNIP, Unifesp, Un. Einstein de Limeira, UFG, UFBA, UNIFAL, UFMA, UFPA, UFV, UFOPA, Unip). Publicou mais de 110 livros e de 175 capítulos nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Áustria, França, Holanda, Itália, Espanha, Argentina, Colômbia, Brasil, entre outros, assim como mais de 470 artigos em mais de 130 revistas científicas estrangeiras e brasileiras arbitradas. Projetos conjuntos com pesquisadores estrangeiros resultaram na visita de numerosos estudiosos, das principais instituições de pesquisa do mundo (Universidades de Londres, Saint Andrews, Boston, Southampton, Durham, Illinois, Barcelona, Havana, Buenos Aires, Londres, CNRS). Co-editou e co-edita enciclopédias como Encyclopaedia of Historical Archaeology, Oxford Encyclopaedia of Archaeology, Encyclopaedia of Archaeology (Academic Press). Participou de mais de 400 eventos e organizou mais de 40 reuniões científicas. Foi Secretary, World Archaeological Congress (2002-2003), membro permanente do conselho da Union Internationale des Sciences Préhistoriques e Protohistoriques (UISPP). Líder de Grupo de Pesquisa do CNPq, sediado na Unicamp, com 45 pesquisadores e 43 estudantes, e vice-líder de dois outros grupos.

via: vitruvius.com.br

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