A SALA BRANCA

Gosto de arquitetura porque gosto de literatura. Gosto de livros porque ocupam espaço e contém histórias. Narrativas reais ou imaginadas, não importa: histórias acontecem no espaço; histórias acontecem no tempo. Acontecem na vida, fabricam sentido, conduzem personagens, ou se deixam conduzir, por ou através deles. A geografia dos livros pode ser tão real quanto caminhar pela cidade. Ou ainda mais real. Porque a leitura – a boa leitura! – exige que se deixe a pressa de lado, pede que se adote outra velocidade cognitiva, para que sua ecologia se imponha como um estado distinto das outras realidades que a cercam.

É preciso um lugar confortável. Uma luz adequada. Uma familiaridade. Uma curiosidade. É preciso uma espécie de vazio a ser preenchido. A suspensão da descrença, lembrada por Umberto Eco. E um autor disposto a brindar, ao leitor, uma narrativa cujas intrigas aguardam uma decifração. Expectativa quanto ao estabelecimento de uma forma de ordem, necessária para sua subversão.

“Extrema ordem traz extrema desordem. A razão entre ordem e desordem é contingente”. Palavras do artista norte-americano Robert Smithson − endereçadas à compreensão da obra de outro americano, Sol LeWitt, não por acaso, ambos responsáveis por certas formas de subversão da ordem esperada na arte da tradição − que situam, penso, a problemática da percepção. E, na obra de um e de outro artista, a arte conceitual que, por vezes, se vale de formas de arquitetura e literatura, como mídias implicadas ao processo de criação artística. Apenas à guisa de exemplo, de como certos campos se interpenetram, contingentemente.

A palavra contingente, aqui, é importante para a construção de meu ponto de vista. Implicações com a noção de incerteza, e com a indeterminação das causas.

Na literatura e na arquitetura (como na arte conceitual a que fiz uma referência que aqui é simplesmente marginal), o vasto mundo dos possíveis, geradores de um espaço analítico: no primeiro caso, ao leitor cabe a arrumação da desordem que a ecologia da leitura trata de instaurar; quanto à arquitetura, a construção de um edifício − ou de uma cidade − traz implicada a rede de devires de uma hermenêutica instauradora de múltiplas ordens e escalas.

Imediatamente, interessam-me os espaços entre (in-between) que se realizam na sobreposição do escrito e do vivido, na mistura das memórias dos dois protagonistas, leitor e autor, na operação de um duplo dispositivo de traduções simultâneas, entre o que está dentro e fora, do texto-espaço e do espaço-continente do leitor.

Penso insistentemente em uma confortável poltrona meio gasta em um canto de uma sala de estar de paredes brancas. Ao lado da poltrona, uma luminária lança uma luz precisa, um cone iluminado que estabelece, a sua vez, um espaço distinto. Na parede, à esquerda, a estante dos livros, onde convivem de Goethe a Steinbeck, de Ana Cesar a Bukowski, de Poe a Kerouac, de Aldiss a Perec. Entre outras associações do acaso. Ou associações de intenções.

Há prateleiras exclusivas: uma para Calvino; uma para Cortázar. Isso revela já algo mais que uma simples forma de ordenamento. Estabelece uma coleção, e faz do leitor um colecionador, revelando parte de sua alma, preenchida de memórias artificialmente implantadas no córtex cerebral. E, com Bergson, memória é matéria. E duração.

As escolhas do leitor-colecionador revelam, também, um princípio de método: a não observância das classificações elementares. Não se percebe uma ordem alfabética, ou por assunto, ou por época, ou por tamanho de objetos. Mas, ao que possa parecer aleatoriedade, impõe-se uma ordem de natureza distinta, uma topologia de momentos, onde as vizinhanças, proximidades e separações são quase uma cronologia. Topologia que não respeita hierarquias de obras ou autores, mas antes, leituras que não seguem, a sua vez, um plano maestro destinado a um objetivo estático. Não se enganem os desavisados: os livros apenas parecem inertes. A paz aparente das prateleiras é apenas uma ilusão. Há imensas, intensas, tensões, no silêncio da sala branca. O devir do leitor e das leituras obedece, talvez, ao ciclo solar, ao passo das estações, às variações da pressão arterial.

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