SOBRE ARQUITETURA

Traduzir pode ser “trair”, nunca petrificar.
Haroldo de Campos

 

Quanto à arquitetura, é preciso compreender as forças por trás das formas. Arquitetura, pois, como matéria da filosofia, da literatura, das artes visuais; arquitetura, assim, como máquina fabricante de conceitos; o arquiteto, amigo do filósofo, do escritor, do artista, é também amigo do conceito. Ou seu traidor: melhor isso do que torná-lo pétreo.

Arte constrangida pela ciência, a arquitetura é física aplicada: “a forma vem, a gravidade empilha” – memorável frase de Helena Xavier. É, também, biologia aplicada: forma de pele necessária para a adaptação vital do homem ao ambiente. É geologia: o exoesqueleto humano na proposição do filósofo Manuel de Landa. Na prancheta, seja analógica ou digital, ela é geometria e cálculo, matemática aplicada. No canteiro, no agenciamento do trabalho dos operários da construção, a arquitetura é antropologia; nos canteiros das pobres metrópoles da “grande periferia”, ela é a arqueologia das mãos mais ásperas e dos rostos mais sofridos. Na extensão das cidades, a arquitetura se faz geografia e traz materialidade à história.

Rechaço absoluto ao ponto de vista que deseja à arquitetura o status de ciência do artificial, justamente em oposição as ditas ciências naturais. Nada mais natural que a arquitetura, e nada mais natural, ao homem, que a projetação, neologismo emprestado do italiano, compreendido aqui como teia contínua de ajustes necessários à dialética implicada ao homem e seu espaço.

Na tensão entre a invenção e a descoberta, entre a ilusão e a percepção, entre intuição e tradução, entre tradição e traição, a arquitetura é a obra dentro da obra dentro da obra. Eterna, etereamente, mise em abyme.

Desde este ponto de vista (que é, por natureza, pura relatividade), é preciso pensar as formas através das quais a arquitetura acontece. A idéia de projeto como intrincado cognitivo do pensamento: o contexto, o problema, a forma que soluciona um problema num contexto. A construção, os modos de produzir a arquitetura, implicações entre ideologia e tecnologias. Das coisas (intangíveis, situadas no domínio virtual) nascem coisas (tangíveis: com corporeidade no mundo real), livremente introduzindo a expressão de Bruno Munari, e então outro círculo, uma nova volta dialética. A expansão do campo dos possíveis: onda que se observa como partícula quando já outra onda se forma. Um verbo que funda um substantivo: construir uma casa, por exemplo.

Assim, o desenhador (o sujeito epistêmico da arquitetura), debruçado sobre um problema aparentemente banal – a casa para uma família composta por pai, mãe e dois filhos ainda crianças, que desejam gastar o menos possível, mas que a casa seja ampla, bem iluminada e arejada, que seja durável, fácil de manter, com possibilidades de se adaptar, que seja econômica em relação aos custos de água e energia, que seja bonita, um lugar para sonhar –, mas totalmente particular, ainda que absolutamente geral, saberia que não existe uma única, nem sequer uma melhor, solução: saberá que a casa é um continente que, por definição ontológica, está além do arquiteto, e o que o arquiteto pode almejar é, tão somente, uma aproximação.

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