A boa arquitetura

Incansável defensor das construções ecoeficientes, para o arquiteto Siegbert Zanettini a sustentabilidade é inerente a bons projetos em qualquer época

Um dos Pioneiros no uso do aço no Brasil, o arquiteto Siegbert Zanettini faz parte da primeira geração de professores doutores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (FAU-USP) que soube, desde sua formação, no final da década de 1950, aliar conhecimento teórico à prática profissional. Autor de projetos como a Escola Panamericana de Arte, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e o Fórum Verde, em Brasília, entre muitos outros, tem no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), no Rio de Janeiro, o projeto que sintetiza os conceitos arquitetônicos aplicados no exercício da profissão. No Cenpes, o arquiteto novamente explorou diversas possibilidades no uso do aço, ao mesmo tempo investindo em inovação e sustentabilidade.

No Cenpes, vista interna do piso de ligação entre os blocos de laboratórios. No projeto ecoeficiente, o arquiteto explorou todas as possibilidades do aço.

Filho de marceneiro, desde cedo teve contato com a matéria e entendimento da necessidade do conhecimento dos materiais, seja a madeira,  o aço ou o concreto. Para ele, a arquitetura é o equilíbrio e a harmonia entre o mundo racional e a sensibilidade. Justamente o que ele conseguiu colocar em prática no Cenpes: “Não fazemos arquitetura independente das demais ciências, pois, se observadas globalmente, conferem visão sistêmica importante, afinal uma obra não se resolve no canteiro, é pré-resolvida, planejada e projetada”. Por outro lado, entende que não é possível pensar a arquitetura sem sensibilidade. “A arquitetura precisa causar encantamento, sonho. É necessário estar além do tempo para pensar em sustentabilidade, em ecoeficiência.”

Redução de tempo e custos se somam à leveza da sede do escritório Siegbert Zanettini, construída em 1987, onde a opção pelo sistema industrial em aço respondeu à necessidade de projetar um espaço mutante.

Quem conhece um pouco de sua obra sabe que os princípios fundamentais que, hoje, são amplamente divulgados para as construções ecossustentáveis sempre nortearam todas as suas criações. Em primeiro lugar, o projeto arquitetônico está inserido em um contexto urbano, que é único e específico. “Além disso, cada projeto requer uma solução própria. Edifícios construídos com grandes panos de vidro e que recebem sol em todas as faces não são sustentáveis e são incompatíveis com as condições climáticas brasileiras”, diz.

Apesar de essas discussões não serem novidade entre os profissionais ou no próprio meio acadêmico, Zanettini continua sendo um incansável defensor da boa arquitetura que, a seu ver, é sempre sustentável. A plasticidade de um projeto, a maneira como se integra à paisagem, o contexto histórico e cultural no qual se insere, bem como as possibilidades de reciclagem estão sempre presentes em suas obras e são a prova de que, quando bem-aplicados, os processos industrializados podem favorecer a sustentabilidade de uma construção. “Além dos dados de implantação, relevo e clima, é fundamental pensar que edifícios são feitos para pessoas, pois algumas vezes esquece-se disso”, conclui.

Laboratório de inovações

Estruturalmente, o edifício foi montado a partir de duas
grandes treliças laterais, enquanto as lajes, feitas em
duas etapas, ofereciam contraventamento e amarração
à edificação.

 

A construção da sede do escritório Zanettini em São Paulo, edificação erguida em 1987, a partir de um sistema industrializado em aço, rápido, econômico e vantajoso, principalmente em função da inflação galopante daquele período, foi considerada uma das obras mais inovadoras da época. Para se ter ideia, foram necessários pouco mais de 20 dias para a montagem das estruturas, que chegaram ao canteiro de obras com pintura final de fábrica.

O edifício foi composto por duas grandes treliças laterais contraventadas na horizontal pelas lajes. Zanettini destaca que tal modulação criou a possibilidade de um espaço altamente flexível. E foi a partir desta obra, utilizada quase como um laboratório, que a avaliação do desempenho de diversos sistemas permitiu o aperfeiçoamento dos novos projetos, e também inovações, tais como o uso de elementos telescópios em esquadrias e painéis de fechamento para absorver sem patologias as dilatações e contrações da estrutura.

 

 

 

 

 

Montagem e desmontagem

Sequência de imagens da desmontagem e, ao final,
o armazenamento dos perfis para a nova obra.

Após quase 25 anos, quando o arquiteto decidiu mudar de endereço, graças à racionalidade do projeto, 100% da estrutura metálica existente foi desmontada em apenas dez dias. Todos os componentes metálicos foram preservados para demonstrar, na prática, a sustentabilidade de toda a construção.

Devido às mudanças na legislação e diversas exigências por parte da Prefeitura de São Paulo, de acordo com o arquiteto, o projeto para a reconstrução do edifício deverá ter algumas modificações. “Serão necessários recuos maiores, o que impede a montagem integral das duas grandes treliças que sustentam todo o edifício”, afirma. Em função do sistema estrutural em aço, as modificações necessárias poderão ser feitas com facilidade e a obra será concluída até 2013. (N.F.)

 

 

 

 28/06/2012 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço – Edição 30
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