Richard Neutra e o Brasil

Por Abilio Guerra e Fernanda Critelli

 

Richard Joseph Neutra nasceu em 1892, em Viena, Áustria, e formou-se arquiteto pela Vienna University of Technology, em 1918. Durante a época de estudante foi discípulo de Otto Wagner e Adolf Loos, grandes nomes da arquitetura moderna na Europa. Trabalha em Berlim com o arquiteto Erich Mendelsohn e em Zurich com o paisagista Gustav Aimmann, período em que percebe a importante relação entre paisagem e cultura. Desde o início de sua carreira, Neutra demonstra grande interesse em entender a relação arquitetura e sociedade e, para isso, recorreu aos teóricos da psicologia experimental, como Wilhelm Wundt e Gustav Fechner (1). “O que tornou Neutra único não foi a busca infindável da forma, mas sim a busca contínua do ser humano” (2). Suas preocupações e questionamentos ficam claros nas viagens que realiza pelo mundo e no empenho em não apenas conhecer as arquiteturas realizadas na época, mas também seus idealizadores. E é nesse contexto que conhece e se torna amigo do arquiteto Louis Sullivan.

Richard Neutra foi atraído para os Estados Unidos por influência de seu amigo e conterrâneo Rudolf Schindler e pela admiração das obras de grandes nomes da arquitetura moderna norte-americana, como Frank Lloyd Wright e Louis Sullivan. Em 1923, desembarca em Nova York, trazendo consigo a experiência da vanguarda européia e as tendências doConstrutivismo e do De Stijl. Pouco tempo depois, muda-se para Chicago, onde trabalha como desenhista no escritório local Holabird & Roche, período em que desperta seu interesse pelo estudo de novos materiais e técnicas construtivas que possibilitassem a criação de estruturas e espaços flexíveis. Assim, em 1927, publica o livro Wie baut Amerika(“Como se constrói na América”), onde aborda as problemáticas e possibilidades da arquitetura norte-americana a partir de um estudo de caso, o projeto do Hotel Palmer (desenvolvido no período em que trabalhou na Holabird & Roche).

No enterro de Louis Sullivan, em 1924, Richard Neutra conhece pessoalmente o mestre Frank Lloyd Wright e recebe convite para trabalhar em seu ateliê. No entanto, divergências em relação ao gosto de Wright por ornamentos e pelo uso de alvenaria fizeram com que permanecesse como colaborador por apenas três ou quatro meses. Muda-se, então, em 1925, para Los Angeles, onde reencontra Schindler e, juntos, participam de concursos – como o de Genebra para o Palácio da Liga das Nações, em 1927. Alguns meses mais tarde, Neutra abre ateliê próprio.

Richard Neutra deixou vasto e importante legado de obras da arquitetura do século XX e já em 1925 o arquiteto alemão Walter Gropius considerava-o um dos grandes nomes da arquitetura moderna (3). Sua relevância se comprova pelos inúmeros projetos realizados, pela contribuição acadêmica – foi professor da Academia de Arte Moderna de Los Angeles – e pela participação no 3° Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), realizado em Bruxelas, quando foi delegado dos Estados Unidos. Sua presença foi também muito importante na exposição Modern Architecture, ocorrida no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), ao lado de Mies van der Rohe, Walter Gropius e Le Corbusier, entre outros.

Neutra demonstrava profundo interesse em entender as condições sociais e climáticas dos locais em que sua arquitetura seria implantada, adaptando, portanto, os conceitos do movimento moderno às diferentes demandas. “Definia sua prática como Biorrealismo. Bio do grego Bios, que significa vida, e realismo porque a arquitetura deve partir do ser humano, de como se comporta e como se desenvolve” (4). Característica essa que foi decisiva para sua nomeação como consultor do Committee on Design of Public Works de Porto Rico. Estado livre associado aos Estados Unidos, a ilha apresentava considerável demanda de habitações, escolas e hospitais, principalmente que se adequassem ao clima quente. Na década de 1940, o governador designado, o economista e planejador norte-americano Rexford Guy Tugwell, propôs um programa de modernização estratégica que fosse capaz de “estabelecer uma imagem de igualdade internacional” (5).

Para isso, foram contratados arquitetos como Richard Neutra, Henry Klumb, Isadore Rosenfield, Simon Brienes e Joseph Blumenkranz que, juntamente com profissionais porto-riquenhos, criaram uma nova arquitetura para a ilha, denominada “arquitetura do movimento”. Esta seria o resultado de uma arquitetura moderna adaptada aos materiais, técnicas e clima local. “Isto é, uma de suas finalidades principais seria impulsionar a metamorfose da sociedade para finalmente conseguir a sua equiparação aos novos cenários onde a arquitetura representava instituições modernizadas” (6). A criação do Committee on Design of Public Works foi aprovada, em 1943, com a Lei 122 da legislação porto-riquenha. Seu objetivo era proporcionar desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais e, principalmente, acabar com o desemprego, problemas gerados pelas guerras mundiais. Pretendia-se antecipar a volta dos soldados, estabelecendo “uma agência de emergência que recorreria a processos e técnicas modernos para projetar – a uma escala de massas – obras funcionalistas que enfatizassem a economia no desenho e nos espaços” (7).

Portanto, em meados da década de 1940, Richard Neutra viajou pelas Américas Central e Latina, já a serviço do Departamento de Estado do governo norte-americano, para melhor entender as questões habitacionais e dos estabelecimentos de saúde e educação nas áreas rurais e urbanas dessas regiões. Contou com a ajuda de arquitetos locais para melhor compreender as problemáticas e as complicações político-econômicas. “Richard Neutra acreditava que o simples fato de dar casas às pessoas carentes – Housing – não era suficiente para resolver o problema. Era preciso rever e modificar os conceitos domésticos dessa parcela da população. Tirá-la do patamar da rejeição social e promover a integração com a cidade, proporcionando habitações dignas e apropriadas às suas necessidades – Rehousing” (8).

Estudadas essas questões locais, foi capaz de realizar importantes trabalhos sociais em Porto Rico, como consultor do Committee on Design of Public Works. Segundo Luz Marie Rodríguez López, “para Neutra […], o trópico inscrevia certas conotações tanto culturais como climáticas que deveriam ser exploradas e assumidas para conseguir uma arquitetura adequada ao espaço geográfico e que em certo sentido, serviam para corrigir as atitudes enquanto às referências historicistas” (9).

Richard Neutra e o Brasil

Durante as viagens a cargo do Departamento de Estado norte-americano, Richard Neutra visitou o Brasil pela primeira vez, em 1945. Esteve em contato com arquitetos modernos como Gregori Warchavchik, mostrando-se sempre interessado em entender os problemas de planejamento e de projeto, principalmente no que se referia à adequação das arquiteturas aos diferentes climas. Estabeleceu também contato pessoal com o jornalista e crítico de arte Pietro Maria Bardi, fundador – juntamente com Assis Chateaubriand – e diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo – Masp.

Os trabalhos de Richard Neutra na América Latina tiveram grande repercussão e acabaram por culminar na publicação do livro Arquitetura social em países de clima quente, no Brasil, em versão bilíngüe (português e inglês), em 1948. A publicação se desdobrará em um maior interesse por parte dos arquitetos brasileiros, não só pela sua arquitetura primorosa, mas também por seu enfoque, indagações e questionamentos. O livro representou um importante legado deixado por Neutra e foi utilizado recorrentemente pelos arquitetos modernos brasileiros como referência na construção de projetos de edifícios públicos, principalmente aqueles da rede de ensino.

De sua primeira visita, resultou também a organização de uma exposição de suas obras, que ocorreria, em 1950, no Masp (10). A pesquisa ainda não confirmou as circunstâncias exatas do acontecimento da exposição, mas sabe-se que houve a publicação de um catálogo sobre ela – Neutra: residências (11) – com textos do próprio arquiteto e de Pietro Maria Bardi.

A importância da presença de Neutra no Brasil, quando fez apresentações públicas (12), e dos dois livros publicados com sua obra foi registrada por Henrique Mindlin – “Richard Neutra incitou o entusiasmo da geração mais jovem pelas palestras nas quais ele discutiu seriamente os aspectos humanos e sociais da arquitetura” (13) – e em alguns trabalhos acadêmicos. Mônica Junqueira, por exemplo, ao comentar a importância do contato com a arquitetura norte-americana para a transformação da obra de Oswaldo Bratke, assinala que as viagens que [Bratke] passou a fazer ao exterior a partir de 1942, onde teve a oportunidade de visitar obras significativas, o contato com profissionais americanos e europeus e a publicação de algumas obras como Arquitetura social em países de clima quente, de Richard Neutra, publicado aqui em São Paulo em 1948, tiveram papel preponderante no seu processo de transformação. Nesse livro, lançado logo após sua estada no Brasil, quando teve a oportunidade de visitar as obras de Bratke, Neutra defende veemente a idéia de uma arquitetura própria para cada local, segundo suas especificidades de clima, topografia, cultura e sociedade” (14).

Se Mônica Junqueira menciona a visita feita por Neutra às obras de Bratke, Hugo Segawa e Guilherme Mazza Dourado salientam a visita anterior, feita pelo arquiteto brasileiro, às obras do austríaco na América: “a primeira viagem de Oswaldo Bratke aos Estados Unidos foi para a costa oeste, em 1948. Assinante, visitou a redação de Arts & Architecture e decerto acertou a publicação da casa, então recém-concluída. Nessa incursão por terras norte-americanas, o arquiteto brasileiro visitou obras de Richard Neutra e Frank Lloyd Wright” (15). A casa do arquiteto, na rua Avanhandava, foi publicada na revista comandada por John Entenza na edição de outubro de 1948. Bratke, portanto, além de conhecer as obras dos arquitetos “californianos”, conseguiu também difundir sua obra numa das mais importantes revistas de arquitetura da época.

Adriana Irigoyen, em sua tese de doutorado, chama Neutra de “arquiteto peregrino” e diz que ele visitou as obras de Brasília acompanhado por Oscar Niemeyer, afirmação corroborada por fotos da ocasião. Também acompanhada por documentação fotográfica, Irigoyen comenta a visita do casal Richard e Dion Neutra à casa de Carlota Macedo Soares em Petrópolis, ciceroneado pelo arquiteto Sergio Bernardes, responsável pelo projeto. E conclui com uma afirmação categórica do interesse causado pelo arquiteto austríaco no meio paulistano: “Sua conferência na USP, ante uma platéia entusiasta, transbordando de estudantes e arquitetos, confirmou o impacto de Richard Neutra entre os colegas paulistas. Alguns deles seguiriam a essência de seus ensinamentos” (16).

Marcos Acayaba, no livro sobre sua obra amplamente baseado em sua tese de doutorado, ao comentar sobre um projeto de casa de praia em Peruibe, comenta:

“Fiz um projeto muito simples, usando o que já sabia, o que tinha visto e gostado. Me esmerei na proteção solar através de brises compostos por grandes beirais conjugados a paredes transversais, aplicando o que tinha aprendido em física na FAU. Decidi usar materiais novos, que acabara de conhecer, visitando obras de arquitetura: blocos de concreto e canaletes Eternit na cobertura. Evidentemente, o desenho da casa tem a arquitetura de Richard Neutra como referência. Tinha comprado pouco antes meu primeiro livro de arquitetura, Arquitetura Social, com seus projetos para Porto Rico” (17).

Sabrina Bom Pereira, em sua dissertação de mestrado sobre a obra do arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho, demonstra a enorme influência da obra de Neutra não só sobre o arquiteto objeto de seu interesse, mas sobre outros arquitetos, como aparece nos depoimentos de Pedro Paulo de Mello Saraiva e Jorge Wilheim. Saraiva aponta para a enorme presença de Neutra na obra do Bratke maduro, enquanto Wilheim narra sua participação na edição do livro sobre a obra de Neutra produzida pelo Masp (18).

É totalmente contextualizada, portanto, a publicação da residência Joseph Staller na revista Acrópole (n. 230, dez. 1957), conforme menciona Bom Pereira. Muito antes desta publicação, porém, Neutra já havia sido publicado pela revista Pilotis, editada por um grupo de alunos da arquitetura da Universidade Mackenzie, alguns deles arquitetos importantes no futuro: Salvador Candia, Carlos Millán, Jorge Wilheim, Paola Tagliacozzo, Roberto Carvalho Franco e Sidney da Fonseca (19). A empolgação que o contato direto com Neutra provocou nos jovens mackenzistas transpira no texto publicado como apresentação do projeto:

“pelo exemplar de Pilotis que lhe enviamos, Neutra prontamente respondeu com uma gentilíssima carta acompanhada de vinte fotografias de Julius Schumann mostrando duas de suas últimas residências – uma das quais inédita – pondo-as à disposição da revista. Pilotis sente-se na obrigação de registrar aqui esse fato, para dizer da comoção causada pela significância do gesto” (20).

Carlos Faggin, em sua tese de doutorado, apresenta este relacionamento como motivação para uma influência de Neutra na obra de Carlos Millán, seu objeto de estudo:

“A ligação de Millán e seus companheiros da Pilotis e do escritório da Sete de Abril com Neutra foi grande. Transcende o próprio relacionamento profissional e pode ser lida nos projetos desse primeiro período de atividade profissional. As escolas e residência de Millán nesse primeiro período contém uma profunda influência de Neutra e sua arquitetura social, desde os partidos de projeto, passando pela preocupação com a insolação e ventilação e terminando no detalhamento, que considerava como dado fundamental à pouca especialização da mão-de-obra do interior de São Paulo” (21)

Graças às publicações e à influência provocada no meio arquitetônico local, a presença de Richard Neutra no Brasil se manteve viva durante a década, até que, em 1959, o arquiteto austríaco retorna ao país para participar do Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte – AICA (22), realizado no Rio de Janeiro e Brasília. Sua chegada aconteceu no Rio de Janeiro, onde foi recepcionado pelos arquitetos Henrique Mindlin e Marcelo Fragelli, integrantes do IAB-RJ – Fragelli narra o episódio em seu livro Quarenta anos de prancheta (23). Nos poucos dias em que permaneceu na cidade, Neutra e Dionne, sua esposa, visitaram inúmeras obras de consagrados arquitetos brasileiros, dentre elas o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, construído por Affonso Eduardo Reidy no Parque do Flamengo; a casa de Oscar Niemeyer, projetada para ele próprio; e a residência de Antônio Ceppas, projeto de Jorge Machado Moreira (24).

Do Rio de Janeiro, Richard Neutra e sua mulher partiram para Brasília, que estava em fase final de construção. O Congresso Internacional, cujo tema era A cidade nova: síntese das artes, contou com a presença de grandes nomes da arquitetura, tais como Bruno Zevi e Giulio Carlo Argan (da Itália), Sir William Holford (da Inglaterra, que havia sido presidente do júri do concurso de Brasília), Andre Wogensky, Andre Bloc, Charlotte Perriand, Raymond Lopez e Jean Prouvé (todos da França, sendo este último engenheiro), Aero Saarinem, John O. Entenza, Richard Neutra e Stamos Papadaki (dos Estados Unidos), etc. Dentre os brasileiros, estavam presentes os arquitetos Eduardo Kneese de Melo, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, além do crítico de arte Mário Pedrosa. As repercussões desse Congresso foram profundas e influenciaram os trabalhos teóricos e práticos desses arquitetos, publicados nas revistas da época, Habitat,Módulo e outras (25).

De uma forma geral, a arquitetura moderna brasileira teve, por muitos anos, bases hegemonicamente europeias, com prevalência da obra de Le Corbusier – fato que se comprova com a construção do projeto para o Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, em 1937. Mas foi a partir do segundo pós-guerra, com a Europa fragilizada e os Estados Unidos em franco desenvolvimento como potência mundial, que o Brasil abriu as portas para a influência da cultura norte-americana (American way of life). “Mas enquanto a ascendência era dominante entre as elites, a influência americana ia penetrando na sociedade brasileira através dos meios de comunicação em massa, veículos por excelência da cultura popular do século XX” (26).

No campo da arquitetura, esse fenômeno ocorreu principalmente em São Paulo e com interesse por parte de mackenzistas e uspianos (talvez com uma atenção um pouco maior dos primeiros). Tem início, portanto, uma nova rede de influências baseadas nos projetos de Frank Lloyd Wright, Walter Groupius, Marcel Breuer e do próprio Richard Neutra (curiosamente, com exceção de Wright, todos migrantes europeus). Nos anos recentes diversas pesquisas foram feitas sobre o tema, ampliando muito o conhecimento sobre o tema. No entanto, a presença de Neutra no Brasil, apesar de muito significativa, não recebeu ainda nenhum trabalho que trate de forma precisa suas participações pessoais no país, a divulgação de sua obra em publicações e eventos e o impacto causado no meio brasileiro. O presente trabalho tem como objetivo realizar uma primeira abordagem mais sistemática sobre o assunto, tendo como próximos passos o estabelecimento de uma cronologia e bibliografia sobre a carreira do arquiteto e sua presença no país.

Neutra e uma casa “californiana” no Brasil

A relação de Richard Neutra com o Brasil é de mão-dupla. Não foi apenas ele que causou enorme interesse no meio especializado brasileiro, mas é muito evidente o quanto a paisagem e a arquitetura brasileiras lhe causaram profundas impressões. No ano de 1946, por duas vezes, encaminhou colaborações para a revista Progressive Architecture, quase certamente fruto de sua visita à América Latina em 1945, que incluiu o Brasil. A primeira matéria, publicada no mês de maio, traz comentários sobre aspectos históricos da região e desenhos comentados das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Havana, Macchu Picchu e Lima (27). A segunda, publicada em outubro, traz um interessante artigo de Neutra apresentando ao público norte-americano os anteparos de proteção solar que ele se deparou na sua visita à América Latina (28). O texto é ilustrado com detalhes arquitetônicos de projetos específicos, com ampla predileção pelos exemplos brasileiros, com a presença de balcões, pérgulas, janelas-cortinas, beirais, elementos vazados (cobogós), brises fixos e brises móveis presentes em obras assinadas por Rino Levi, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Alvaro Vital Brazil, Gregori Warchavchik, irmãos Roberto, Eduardo Kneese de Mello e Attílio Correa Lima.

Contudo, um pequeno texto inédito de autoria de Richard Neutra – encontrado na Biblioteca da University of California de Los Angeles (UCLA) – é prova cabal do seu interesse não só pelo país, mas também no estabelecimento de uma interlocução ampla com os arquitetos brasileiros, a quem dedica palavras entusiasmadas. Na segunda parte do texto, comenta um projeto específico do arquiteto Jacob Ruchti:

“O Brasil é grande e muito diversificado. A arquitetura pode encontrar estímulos regionais também fora das poucas áreas metropolitanas, as quais são conhecidas por suas criações altamente originais. Há projetos do período pós-guerra de edifícios prontos para ultrapassar a boa impressão que tivemos nos últimos anos diante das habilidades dos arquitetos brasileiros. O soberbo estudo, ganhador de prêmios, de Henrique Mindlin para o Ministério das Relações Exteriores no Rio é um dos preciosos trabalhos pelos quais esperamos ansiosos.

O que é particularmente esperançoso é uma safra de sérios e talentosos jovens – dúzias deles – em São Paulo e no Rio de Janeiro, que, com firmeza, sedimentaram uma carreira de projetistas de edifícios que se coaduna com seu tempo. Estou feliz pela amizade que expressam por meus esforços e meus sentimentos por eles não são menos amistosos. Espero que tenha sido me dada a tarefa de ajudar a compor uma hemisférica e mútua lista de visitantes! Conhecimento pessoal de jovens criativos pode fazer grandes coisas.

Uma pequena casa ilustrada nos mostra uma possível menos conhecida face deste excelente trabalho feito no Brasil.

Projetada em 1942 como um lugar de descanso – a “Casa de Férias” para Sr. e Sra. Luthi, que cooperaram com o arquiteto Jacob Mauricio Ruchti – a casa é face norte (o que corresponde ao nosso sul!) no lago Eldorado, próximo a São Paulo, Brasil. Piso e parede foram construídos com o mais econômico material local: tijolo comum nas paredes externas e expostos em ambas faces. Para as portas, janelas, treliças e a corajosamente projetada pérgula, o arquiteto Ruchti escolheu madeira peroba com acabamento natural. As telhas, os forros e os painéis das grandes aberturas frontais foram construídos com placas onduladas de Eternit (cimento amianto).

A paisagem subtropical do lago Eldorado é motivo, configuração e maravilhoso auxílio para tornar o projeto um sucesso.

Casa túmulo da vida é um estranho, triste e velho provérbio brasileiro que foi por muito tempo terrivelmente aplicado a muitas casas, dentro e fora do Brasil! As casas desses jovens arquitetos desmentem esse provérbio” (29).

O texto em questão não está datado, mas é quase certo que é um registro de sua passagem pelo Brasil em 1945, quando esteve em São Paulo e pôde conviver com diversos arquitetos paulistas. O autor do projeto comentado, arquiteto Jacob Ruchti, na ocasião era sócio – com Miguel Forte, Plínio Croce, Roberto Aflalo, Carlos Millan e Che Y. Hawa – da loja de Branco e Preto, que projetava, fabricava e construía mobiliário moderno. Aparece também na tese de Adriana Irigoyen como um dos arquitetos “californianos” de São Paulo.

A planta e as fotos que nos foram gentilmente fornecidas pela filha do arquiteto, Valéria Ruchti, demonstram, ao mesmo tempo, a clara vinculação do projeto aos princípios gerais estabelecidos pela arquitetura norte-americana da vertente “wrightiana” (ou “californiana”), mas também as limitações impostas pelo estágio de desenvolvimento da civilização brasileira daquele período.

A planta compacta, ao estilo cottage norte-americano, se articula com divisão funcional – dormitório estreito com duas camas, cozinha compacta (kitchenette) e salão social único com estar e jantar. O posicionamento da porta de entrada é estratégico, junto à cozinha, permitindo um fluxo direto para as áreas de serviço e de recolhimento. Na parede oposta à entrada temos ampla abertura para o exterior, com portas de correr, onde se encontra a varanda conformada pelo beiral e pela pérgula. A presença da lareira – elemento freqüente na arquitetura paulistana das décadas de 1950 e 1960 – em um dos cantos da sala evidencia a conexão com a arquitetura de Frank Lloyd Wright e seguidores, que tem na lareira um de seus motivos recorrentes. Outra conexão evidente é a predileção pelos materiais brutos, sem revestimentos, obtendo nesta essencialidade uma plasticidade fundada na revelação da tectônica original – em geral referido nos textos críticos e históricos como “arquitetura orgânica”. Madeira é madeira, pedra é pedra, tijolo é tijolo.

Outra questão essencial à arquitetura norte-americana do segundo pós-guerra, a industrialização da construção, aparece de forma distorcida, denunciando o limite desta aproximação. A arquitetura de Richard Neutra deste período, como a dos demais arquitetos “californianos”, agrega à experiência de Wright o enorme potencial tecnológico voltado para a experimentação e desenvolvimento de componentes, disponível graças à desmobilização do esforço de guerra e a busca de novos mercados pela pujante economia vitoriosa. No caso da pequena casa de Ruchti temos um limite estreito no uso de materiais industrializados – praticamente resumido à presença de telhas de eternit – que é contrabalançado com um exímio esforço de padronização e estandartização no uso de materiais manipulados artesanalmente. A geometria precisa da pérgula e tesouras em madeira e do assentamento modular dos tijolos simula a perfeição construtiva dos componentes industriais das casas norte-americanas.

Jacob Ruchti não está sozinho nesta arquitetura que se prepara para uma industrialização da construção que nunca chega ao Brasil. É possível verificar o mesmo desejo, a mesma aposta na geometria como preâmbulo da industrialização, em projetos de arquitetos diversos como Sergio Bernardes, Rino Levi e Oswaldo Bratke, que na mesma ocasião estavam com os olhos postos na América. Afinal, diante da “seca” de projetos paradigmáticos de casas unifamiliares vindas da Europa, na ocasião voltada para a reconstrução de suas cidades bombardeadas, a arquitetura residencial dos Estados Unidos se transformou na referência principal, graças não apenas a sua exuberante qualidade, mas também – e principalmente – à hegemonia cultural do país no mundo ocidental, embalada por políticas governamentais de auxílio aos países em desenvolvimento e pelo cinema de Hollywood.

Não é por acaso que a residência Josef Von Sternberg – “casa em aço e vidro projetada por outro mestre moderno Richard Neutra”, como nos ensina Paulo Fujioka – é cenário do filme “A nascente” (The Fountainhead), que conta a história do arquiteto modernista Howard Roark (Gary Cooper), baseado na vida de Frank Lloyd Wright, segundo a lenda jamais comprovada. A casa estilisticamente moderna e tecnicamente industrializada é uma imagem-síntese de como a América queria ser vista pelo mundo. Enquanto isso, no Brasil, os esforços de mimetizar esta arquitetura acabam por gerar uma arquitetura inventiva, que acomoda os princípios externos às possibilidades locais. Há muito a ser pesquisado sobre este tema e este pequeno exemplo é apenas uma amostra do que poderá ser encontrado.

 

 

notas

NE
Artigo apresentado no II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – Enamparq, Natal, 18 a 21 de setembro de 2012

1
Cf. RIBEIRO, Patrícia Pimenta Azevedo. Teoria e prática. A obra do arquiteto Richard Neutra. Tese de doutorado. Orientador Adilson Macedo. São Paulo, FAU USP, 2007.

2
LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works. Nova York, Taschen, 2000, p. 7.

3
WARCHAVCHIK, Gregori. Introdução. In NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura social em países de clima quente. São Paulo, Todtmann, 1948, p. 12.

4
IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Da Califórnia a São Paulo. Tese de doutorado. Orientador Paulo Bruna. São Paulo, FAU USP, 2005, p. 37.

5
RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. ¡Vuelo al porvenir! Henry Klumb y Toro-Ferrer: proyecto moderno y arquitectura como vitrina de la democracia – Puerto Rico, 1944-1958. Tese de doutorado. Barcelona, Universitat Politècnica de Catalunya, 2008, p. 200.

6
Idem, ibidem, p. 213.

7
Idem, ibidem, p. 207.

8
CRITELLI, Fernanda. A questão social da arquitetura. O livro de Neutra: “Arquitetura social em países de clima quente”. Resenhas Online, São Paulo, n. 09.106.03, Vitruvius, out. 2010. <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/09.106/3786>.

9
RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. Op. cit., p. 214.

10
LAMPRECHT, Barbara Mac. Op. cit.

11
BARDI, Pietro Maria. Neutra: residências. São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1950. O livro contou com a participação, em sua edição, do arquiteto Jorge Wilheim.

12
“Neutra encontrou-se com jovens arquitetos locais e participou de discussões em mesas redondas e palestras em Universidades”. RIBEIRO, Patrícia Pimenta Azevedo. Op. cit., p. 14. O levantamento desta série de atividades é uma dos objetivos desta pesquisa de iniciação científica.

13
MINDLIN, Henrique. Arquitetura moderna no Brasil. Rio de Janeiro, Aeroplano, 1999, p. 7. O original em inglês é de 1956.

14
CAMARGO, Mônica Junqueira de. Princípios de arquitetura moderna na obra de Oswaldo Arthur Bratke. Tese de doutorado. São Paulo, FAU-USP, 2000, p. 105.

15
SEGAWA, Hugo; DOURADO, Guilherme Mazza. Oswaldo Arthur Bratke. São Paulo, Pro Editores, 1997, p. 24.

16
IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Op. cit., p. 135.

17
ACAYABA, Marcos. Crônica de uma formação. In ACAYABA, Marcos. WISNIK, Guilherme; SEGAWA, Hugo; KATINSKY, Julio Roberto. Marcos Acayaba. São Paulo, Cosac Naify, 2010, p. 33. O orientador desta pesquisa, Abilio Guerra, em conversa ocorrida há poucos anos no escritório do arquiteto em sua casa no bairro do Morumbi, ouviu a seguinte afirmação do arquiteto Marcos Acayaba: “o livro de Richard Neutra sobre arquitetura em regiões de clima quente foi meu livro de cabeceira durante anos”, frase complementada com o gesto de esticar o braço para trás e pegar na prateleira um volume antigo e muito manuseado, o livro Arquitetura social em países de clima quente, de Richard Neutra.

18
PEREIRA, Sabrina Bom. Rodolpho Ortenblad Filho: estudo sobre as residências. Dissertação de mestrado. Orientador Abilio Guerra. São Paulo, FAU Mackenzie, 2010, p. 221 e 225, respectivamente.

19
FERRONI, Eduardo Rocha. Aproximações sobre a obra de Salvador Candia. Dissertação de mestrado. Orientadora Regina Meyer. São Paulo, FAU USP, 2008, p. 29.

20
Revista Pilotis, São Paulo, n. 4, fev. 1950. Apud FERRONI, Eduardo Rocha. Op. cit., p. 36

21
FAGGIN, Carlos Augusto Mattei. Carlos Millán. Itinerário profissional de um arquiteto paulista. Tese de doutorado. Orientadora Marlene Yurgel. São Paulo, FAU USP, 1992, p. 28.

22
Habitat, n. 57.

23
FRAGELLI, Marcelo. Quarenta anos de prancheta. São Paulo, Romano Guerra, 2010, p. 82.

24
Idem, ibidem.

25
RIBEIRO, Patrícia Pimenta Azevedo. A participação do arquiteto Richard Neutra no Congresso Internacional Extraordinário de Crítico de Arte em 1959. Rio de Janeiro, VIII Seminário Docomomo Brasil, set. 2009. <www.docomomo.org.br/seminario%208%20pdfs/025.pdf>. Acesso em 09-11-2010.

26
IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Op. cit., p. 75.

27
NEUTRA, Richard. Observations on Latin America. Progressive Architecture, Nova York, n. 5, Reinhold, p. 67-72, maio 1946.

28
NEUTRA, Richard. Sun Control Devices. Progressive Architecture, Nova York, n. 10, Reinhold, p. 88-91, out. 1946.

29
A versão original em inglês é a seguinte:

“Brazil is a huge and much diversified. Architecture can find of regional stimulation also outside of the few metropolitan areas, which in themselves have been known for highly original creations. There are post-war building projects ready to continue and to surpass what in the last years has caused us to appreciate highly the skill of Brazilian architects. Henrique Mindlin’s superbly studied and prize winning plan for the Ministry of Foreign Affairs I Rio, is one of the fine works we may look forward to.

What is particularly hopeful, is a crop of earnest and gifted young men – dozens of them – in Sao Paulo and Rio, who with clarity have staked out for themselves a carrier of building design, that fits its age. I am happy about the friendship they express for my own efforts, and my feeling for theirs is indeed no less friendly. I wish I was given the task to help compose a hemispheric and mutual visitors list! Personal acquaintance of creative young men should do great things.

The illustrated small house shows a perhaps less know facet of good work, done in Brazil.

Designed in 1942 as rural place – a “Casa de Férias” for Sr. and Sra. W. Luthi, who helped the architect Jacob Mauricio Ruchti by their intelligent cooperation – the house faces north (that corresponds to our south!), on Eldorado Lake, unfar Sao Paulo, Brazil. Floors and walls were built of the most economic local material: common brick in exterior walls is exposed both inside and out. As materials for doors, windows and trusses with the courageously projecting pergola, architect Ruchti chose Peroba wood of natural finish. Roof covering, ceilings and panels over large front openings were done with corrugated and flat Eternit (Cement-Asbestos) boards.

The sub-tropical Eldorado landscape is motive, setting and glorious assistant to make the undertaking a success.

“Casa túmulo da vida” – a house is life’s tomb – is a strange, sad and old Brazilian proverb, that has for long awfully applied to many houses, in and outside Brazil! These young architect’s houses give it the life.

[Young Brazil, Richard Neutra. Fonte: UCLA]

 

sobre os autores

Abilio Guerra, arquiteto, mestre e doutor em história (IFCH-Unicamp), professor adjunto da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Fernanda Critelli, arquiteta, mestranda em arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

Artigo origina em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.159/4837

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